...O Rio de Janeiro passou a ser para o pessoal aqui de casa uma espécie de caminho da roça, coisa que jamais imaginávamos acontecer um dia. O ponto mais distante de minha viagem teria sido até a Praça da Sé. O Rio de Janeiro fui conhecer quando era um dos jovens romântico dos anos 70 por obra e graça do saudoso Vicente Lobo que nos levou no velho “Dojão” carregado de abóboras. Se não fosse com o Vicente, o Mauro Bechelli, conhecido entre nós por Mauro Abobreiro, haveria de dar um jeito da gente conhecer o Corcovado e o Pão de Açúcar, mesmo à distância. Nessas idas e voltas da vida, eis que me vejo em casa do meu genro na Região Oceânica de Niterói. Como dizia o velho Cassiano Vieira, uma espécie de Sorocaba, circundada de belas praias.
...Naquele dia, à uma semana do Natal, minha mulher e eu nos acomodamos no banco de traz do carro do meu genro e fomos pela orla admirando a paisagem do cartão postal carioca que encantou o mundo inteiro. O queixo caído diante do vetusto e luxuoso Copacabana Pálace onde adentrava uma luxuosa limusine, longe da pobreza das favelas violentas. Rememorei o triste destino do Jorginho Guimle, playboy herdeiro daquele palácio onde se hospedaram nomes importantes do mundo inteiro, mas que por desatino de rico mimado, terminou seus dias como escravo de um salário mínimo para mal sobreviver, recebendo ajuda das “socialites”, para pelo menos morrer dignamente. Nosso ponto de chegada seria o bairro da Urca, onde minha filha e seu marido iriam rever amigos manauaras que por força do ofício haviam sido transferidos à Cidade Maravilhosa.
...Seria até pedantismo da minha parte falar daquele bairro famoso da orla, logo abaixo dos bondinhos, o qual abrigou os melhores teatros no passado. Mansões cinematográficas de tirar o fôlego deixavam este santa-cruzense em alumbramento, visto ter a minha vida toda familiaridade somente com casa de pau à pique e rancho de sapé. Estava ali matutando essas coisas do capitalismo que faz os ricos cada vez mais ricos e os pobres enclausurar seus medos em casas simples à borda dos morros que nem tem mais aquela conotação romântica inspiradora de versos sublimes como “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa ou mesmo a “Ave Maria do Morro” do Herivelto Martins.
...Fugindo da conversa que se animava lá dentro entre aventura nos mares da costa brasileira dentro das duzentas milhas protegidas pela marinha, ou nos embates jurídicos de minha filha, fiquei observando um pedaço de rua onde as crianças brincavam com os presentes de natal antecipados quando de repente surgiu no meio delas aquela figura conhecida desde os tempos de eu garoto. Dono de uma simplicidade contagiante, o homem se entregou aos folguedos da garotada da rua que se multiplicava no seu entorno. Eu só poderia estar tendo uma alucinação por causa do calor. Ali estava na minha frente, em carne e osso, o maior ídolo de todos os tempos da música brasileira: o Rei Roberto Carlos, sem seguranças, sem holofotes. Um verdadeiro menino brincando com outros meninos. Ver aquela majestade de perto era o meu melhor presente de natal.
...Arrisquei uns passos tímidos para ficar mais perto do grande cantor que embalou gerações desde os tempos da revolução da Jovem Guarda. Não podia ser verdade aquilo que eu estava vendo. Encolhido num canto da minha insegurança ele me observou e convidou-me para entrar na brincadeira de uma parafernália eletrônica que corria de mão em mão. Pude ver de perto, ao vivo como aconteceu sua inspiração para compor “A Guerra dos Meninos” uma das suas mais belas obras, porque à sua volta os garotos se multiplicavam em alegre correria. Com o coração aos pulos cheguei mais perto para me certificar. Era ele, o rei. Não havia dúvida.
...Estava formulando uma pergunta na cabeça para ter certeza, mas não precisou. Entre tantos presentes à mostra tinha alguém com um violão. Ele tomou o instrumento e começou a dedilhar. Pensei comigo se ele desafinasse seria o “O Sósia” e não o original. Mas ele cantou bem afinado, como sempre, o que o faz dono da voz mais afinada do Brasil. A melodia me transportou daquele cenário cinematográfico da Urca, daquela realidade quase sonho a qual estava vivendo por alguns instantes, às ruas de pó de São Miguel Arcanjo. Sua voz solou cheia naquele pedaço de rua: “...Tudo estava igual como era antes/Acho que só eu mesmo mudei/ E voltei. Eu voltei, agora pra ficar/Porque aqui, aqui é o meu lugar...”
...Meu Papai Noel, sempre ingrato estava sendo bondoso para comigo naquele dia que antecedia a grande festa. Difícil seria contar para alguém o acontecido e convencer quem quer que fosse sobre a veracidade do fato. Nem mesmo a minha mulher, fiel escudeira e testemunha ocular das minhas histórias estava ali comigo para testemunhar esse encontro. Ela provavelmente estava entretida, quem sabe com trocas receitas para a noite da ceia. Eu não queria sair dali para chamar alguém, com medo de quando chegasse mais pessoas o Rei se recolhesse em seu castelo. Continuei no meu posto embevecido, absorvendo aquele instante, o qual jamais se repetiria em minha vida.
...Roberto Carlos atendendo ao meu pedido de admirador tímido e caipira principiou os acordes daquela que eu acho a mais bela de suas músicas, a qual embalou meus sonhos românticos de jovem dos anos 70. Quando as primeiras notas de “Detalhes” encantaram o meu canto, um pequeno detalhe me chamou à realidade. Era minha mulher me acordando para irmos ver de perto a árvore de natal na Lagoa Rodrigo de Freitas. Tudo foi um sonho. Nada mais que um sonho. Acordei suando em bica naquele maldito calor de 40 gráus. Coloquei meus pés no chão da realidade, mas no ouvido permanecia como um eco aquela canção: “Hoje tive um sonho/Que foi o mais bonito/de todos que já tive em minha vida...”
...Até a semana.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
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