sábado, 14 de janeiro de 2012

O QUINTO INFERNO DE DANTE, A HISTÓRIA E A REALIDADE - Orlando Pinheiro


Orlando Pinheiro

...Naquele tempo, quando algum funcionário público “pisava na bola” em sua repartição”, fazendo desfeita ou pouco caso contra alguém importante em numero de votos, o chefe político o mandava para o “Quinto dos Infernos”, que poderia ser traduzido como Sete Barras, Eldorado, Apiaí e São Miguel Arcanjo. Mandar alguém para o quinto dos infernos está saindo de moda, talvez porque neste mundo ateu, pouco, muito pouco mesmo ainda acredita em inferno. Os mais tementes que ainda crêem nesse poço de fogo eterno não costumam mandar mais para lá seus desafetos. Resolvem aqui mesmo, na bala. Parque que lá nos morros do Rio de Janeiro já se chegou ao sétimo dos infernos, assim como se diz que existe o sétimo céu de Dante.

...Eu nunca consegui chegar até o fim do livro “A Divina Comédia”. Era um texto arcaico e chato. O máximo desse clássico que consegui ler foi algumas páginas resumidas da antiga enciclopédia “Trópicos”. Depois li também na enciclopédia “Ler e Saber” outra sinopse desse romance do imortal escritor italiano. Observei que a obra é semelhante uma peça de teatro em três atos. No primeiro ato tem o purgatório, abolido ultimamente por Bento XVI, depois de ter sido excluído do contexto pela igreja reformada, o segundo ato é o paraíso, penso que é porque onde o poeta encontra com a sua amada Beatriz e por fim, dividido em cinco círculos o terrível inferno. Muitos pensam que o termo quinto dos infernos venha da literatura medieval, mas não é. Quinto dos infernos é coisa nossa.

...Nada tem a ver com aquele lugar dito como a sala de espera, o estágio antes de ser engolido pelas labaredas eternas os políticos corruptos, os usurários, os pedófilos, os sodomitas, os comerciantes desonestos... Enfim, os piores tipos de pecadores que seriam castigados com os mais terríveis castigos por ordem de satanás. No quinto estavam os iracundos, os insolentes, os idiotas do BBB do 1 ao 12, a Xuxa, os insolentes, os grileiros de terra, o emergente soberbo... Todos absorvido pelo charco ardente. Mas não era como eu pensava. Não se sabe se o quinto dos infernos era o imposto das nossas riquezas que os portugueses vinham buscar, por se tratar de 1/5 de ouro e inferno devido aqui ser um lugar inóspito e distante. Outros historiadores atribuem a frase à Dona Carlota Joaquina, quando ela pisou no sagrado solo brasileiro. De qualquer forma o ôco, do ôco do mundo é aqui. Só não sei onde nós são-miguelenses nos localizamos.

...Com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil em 1808 fugindo da sanha de Napoleão, a comitiva real foi obrigada a trocar a pompa do império lusitano pelo sol escaldante e mata verdejante do Rio de Janeiro de um mau cheiro nauseabundo. E olhe que ainda não existia favela por lá. A fogosa Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, não deixou por menos e vociferou como se predissesse uma profecia: “Esta terra é o quinto dos infernos...” De volta para a Europa, Carlota sempre assim se referia quando falava sobre o Brasil.

...A história da Independência do Brasil, cheia de ufanismo, com gente marchando de verde-amarelo conta a vida de um herói de duas nações. D.Pedro I do Brasil satirizado e ironizado até hoje e D.Pedro IV, de Portugal, o qual teve que tomar a força o reino lusitano em discórdia entre sua filha D. Maria Amélia e seu irmão D.Miguel. Em terras lusitanas tornou-se um herói nacional respeitado e venerado até hoje. A independência do nosso país era quase uma quimera, mesmo passado algum tempo após o brado do Ipiranga. Havia necessidade de impor a liberdade através de luta armada na Bahia e no Maranhão, entre brasileiros mal treinados, contra tropas armadas leais a Portugal. Havia ainda, como pedra de tropeço para este país crescer os escravagistas, liberais e republicanos. Era mais ou menos como foi quando da nossa emancipação político administrativa neste chão de tenente Urias. Ou vocês pensam que foi fácil se desmembrar de Itapetininga? Até hoje a gente vive lá, não sai de lá, faz compra lá, faz faculdade lá...

...Nunca foi fácil ser liberal e nem pensar com a própria cabeça. Podia perder-se o pescoço. Eu me recordo quando em 1971 peguei um bico de vender livros da Editora Saraiva e um deles, chamado “As Maluquices do Imperador”, do escritor tatuiano Paulo Setúbal que mostrava D.Pedro I como um príncipe chegado em rabo de saia, briguento e arruaceiro. Uma pessoa cheia de defeitos como todos nos. Era uma versão da historia do Brasil que não ensinavam para crianças, tal como “O Rei Cavaleiro” de Pedro Calmon. Hoje nem sei se ainda ensinam história. Sempre acreditamos nas coisas simples dos livros de escola, sem muita pesquisa e profundidade. Para nós, Colombo descobriu a América porque botou um ovo em pé. Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil por causa das calmarias das costas africanas. Inconfidentes como Tiradentes e seus companheiros eram bonzinhos e inteligentes. A independência e a República foram conseguidas com um simples grito. A princesa Izabel era “tão” boazinha que libertou os escravos. Se ela e seu pai eram bonzinhos, porque foram mandados embora do Brasil?

...Entender e discutir política, sem visão maniqueísta, nem ilusão com os salvadores da pátria é uma arte e faz bem. Doutrina-nos e faz-nos entender como votar e mandar pros quinto dos infernos (neste caso o ostracismo) os candidatos de meia tigela. Sem escrupulo e sem princípios que vão aparecer aos montes dando tapinha nas suas costas. Já é tempo desse povo nosso entender que processo eleitoral é a hora e a vez do eleitor. É um exercício consumado de cidadania em seu mais elevado gráu de firmação democrática e não barganha de votos por interesse. Agora, geograficamente falando, por estas bandas, será que já estamos no século XXI? Já era para estarmos no Sétimo Céu de Dante, de imagens indescritíveis, ou continuamos capengando no quinto círculo da Divina Comédia, andando de lá para cá, sempre voltando no mesmo lugar que é o lugar nenhum?

...Até a semana.

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