quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

RUMINAÇÖES DOS ÚLTIMOS 10 ANOS - Orlando Pinheiro


...Todos os anos quando dezembro chega a gente faz um balanço do ano que passou. Como a mente só guarda o momento, é muito difícil para o ser humano calcular uma conta corrente exata dos fatos que ultrapassaram além do ciclo de doze meses. Neste ano que se finda, por exemplo, dá para observar a absoluta democracia com que a imbecilidade foi distribuída entre os Ministros de Estado, lá em Brasília. Deus não permita fato idêntico acontecer nesta terrinha, principalmente no ano de eleição. Entre tantas coisas para se rememorar como manda o fim do ano, antes do brinde final (ou inicial), pois quando as badaladas da meia noite de 31 de dezembro soam a gente não sabe quando termina o ano e nem quando começa o outro. Decidi contabilizar a minha corrida igual à de tantos brasileiros nos últimos dez anos. Inclusive contando perdas irreparáveis.

...Quando o ano 2000 surgiu no horizonte estávamos apreensivos por causa da venda do Banco do Estado de São Paulo S.A, o tradicional Banespa para o Santander. Era grande incógnita do nosso futuro, tirando o sono dos funcionários! Será que os espanhois vão nos absorver como funcionário, assim como o Banespa fez nos anos 70 com os empregados do Banco Intercontinental do Brasil, do mesmo grupo? E absorveu. De estatal passamos a ser funcionários de um banco particular. Era agora que ganharíamos em “Euros”, afinal era um banco europeu. Seis meses depois a diretoria enviou-nos um documento comunicando-nos que se quiséssemos permanecer no banco teríamos de nos adequar às regras, a começar pelo salário proposto pela empresa. Para se ter uma idéia da perda, um escriturário contratado no último concurso de 1988, realizado pelo Quercia, praticamente ainda em início de carreira, ganhava bem mais do que um gerente do Santander. E nós, ingênuos, pensando ganhar em Euro.

...Quando vi a coisa preta, procurei meus documentos, somei meus anos de coroinha e durante as férias corri atrás do Toninho Fiscal para me ajudar. Nessa data eu já contava 30 anos de serviço por conta da Folha de São Miguel Arcanjo. Tirei xerox disso, daquilo e autentiquei até o pensamento. Entretanto, tinha o malfadado pedágio criado pelo Fernando Henrique.Voltei das férias para assumir minhas funções no Departamento Jurídico, onde eu estava lotado. O Jurídico não existia mais. Era inviável para os espanhois manter departamentos similares em locais geográficamente próximos, pois havia um em Sorocaba, dois em Campinas e outro em Piracicaba. Murchavam-se as tetas rechonchudas do Governo e à revelia fui transferido para São Paulo, no 11° andar do Edifício Patriarca, onde ficava o Contencioso do Departamento Jurídico do Banco Santander. Hoje, esse edifício pertence à Prefeitura de São Paulo. Eu viajava, almoçava, pagava metrô com minhas expensas. Não existia mais as polpudas diárias, suporte que o Banespa creditava para essas finalidades. Diante disso valeria a pena queimar as licenças prêmios que eu tinha de sobejo para voltar e brigar com o INSS.

...Algum tempo depois, fui com meus papeis na agência da previdência social, mas não havia agenda com vaga para dar entrada no pedido de contagem de tempo. Só havia vaga para dali à dois anos. Ainda me aconselharam, dar entrada em uma agência que não estivesse com a agenda tão cheia. O INSS não estava ainda sistematizado. O meu amigo e ex-chefe, Dalmiro Francisco, hoje advogado da Afabesp, se sensibilizou com este santa-crucense e deu entrada por São Paulo. Entretanto, quando ele apresentou meus documentos e os peritos da previdência pegaram minha carteira profissional da qual eu me orgulhava, descobriram que entre de 1974 e 1975 a antiga empresa na qual trabalhei, não havia recolhido os tributos para a minha aposentadoria. Coisas de São Miguel Arcanjo! Tive vontade de chorar. Eu era registrado só de mentirinha. Ao me lembrar da integridade à toda a prova dos meus patrões, ambos já falecidos, me vinha na cabeça que o escritório contábil não havia feito o recolhimento.

...Pelo beneplácito consentimento do INSS eu poderia apresentar provas documentais e testemunhais. Sai correndo atrás da Perpétua, da Luiza Válio e quem mais tivesse material da época. Eu já estava tão velho que meus documentos já se consistiam em peça de museu. Assim eu me aposentei como jornalista por força da lei 5250 de 09/02/1967 a qual regulamentava a profissão antigamente. Apesar do sufoco valeu a pena. Só estou preocupado com a garotada que está trabalhando no Santander. Rumores do problema financeiro europeu, com a Espanha no meio, ouve-se algures a possibilidade dos espanhois venderem o seu banco aos “bradescos” da vida para fazer capital. Já foi assim com outro banco espanhol, o Bilbao Viscaia.

...O que sinto mesmo dolorido no peito nestes dez anos é a falta dos amigos que se foram deixando um rastro de saudade. Gente de primeira grandeza, os quais fizeram parte da minha história de vida, como o companheiro de Banespa Carlos Alberto Garcia; meu grande mestre de violão Adalberto Tafuri; o açougueiro Zé de Almeida; o intelectual Mauro Rita, tio do Canhoteiro; o artista plástico Heitor Beranger que retratou meu pai; o amigão Benedito Brandão, meu melhor vizinho; o amigo Plínio Maziero; o Miguel Cinquenta; o Curiango, o Og e o seu irmão Ed, duas vidas ceifadas repentinamente; o amigo José Carlos Molitor, com quem chegamos até compor uma melodia juntos; o parceiro das minhas andanças na juventude pelo Turvo dos Hilários, Daniel Marchesin; o cabo Bendito Vieira; o presbítero José Ramos Gavin; outro presbítero, José Lopes Pascuine, amigo e conselheiro; meu parceiro de rádio, o advogado Renato Camargo; meu cunhado Miguel Assunção, o rei da feijoada; meu sogro José Domingues, homem de seriedade absoluta e palavras comedidas; meu cunhado Benedito do Nascimento Domingues, que muita falta faz até hoje no seio da família; o construtor João Assunção; o santa-crucense Nego de Almeida, pessoa de bondade e simpatia extremas e amado por todos; o Severino da Hora, que me cedeu este espaço; o empresário Ivo Cerqueira, com quem começamos na Folha de São Miguel Arcanjo; o Toninho Caju, grande Sanfoneiro; o Ricardo Muller; o conterrâneo João Gatto; o Luiz Carlos Filipe de Moraes; o Paulinho Bôca; o Amador Teixeira; o Pedro Xisto do taxi; o Tico França, o Ditão de Góes, do açougue... Fica no peito a saudade daquelas que se foram. Mulheres de primeira grandeza como: dona Miquelina, lá de Santa Cruz dos Matos; dona Inês Balan Maziero, dona Honória Galvão; professora Elisa Sena; Irene, a maior cantora que a cidade já teve; Cida Gorda; Telma Helena Válio; Deolinda Pascuine, a mãezona da minha igreja no Jardim Novo Horizonte, entre tantas pessoas muito amadas que se foram nesse decênio. Aqueles que se vão nos dão a certeza de que o homem é um ser só e pode se sentir só mesmo em plena multidão.Não estou meio velho para minha auto-suficiência, eu estou ainda meio novo para o futuro que me espera.

...Até a semana

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