domingo, 11 de dezembro de 2011
MEU IRMÃO, EU E O LIVRO DO CASSIANO VIEIRA - Orlando Pinheiro
Orlando Pinheiro
...Não sei por quanto tempo ainda tenho de explicar a mal fadada piada do Cassiano Vieira escrita no jornal “Tapixi”, de 1976 criado pelo Miguel Arcanjo Terra, o “Miguelzinho do Trincheira”, em campanha a favor do Zaga, a qual foi parar no livreto “Causos do Cassiano Vieira” publicado pela Casa do Sertanista, através Editora Trombetti. Tanto que em agosto de 2010, quando recebi um exemplar da obra, escrevi com o bom humor de sempre a minha rápida passagem pela prefeitura, cujo cargo nunca foi aprovado pela Câmara. Nunca fui levado à administração pública pelas mãos do Cassiano nem quando ele era o eterno vice-prefeito. Fui convidado e guiado com aval dos vereadores Orlando Rosa e Roque Mariano num acerto em abril de 1975 na casa do prefeito José França, em reunião com uísque “Passport”, mesmo na Semana Santa. O Roque sabia do meu trabalho como redator do seu jornal, a Folha de São Miguel. O Orlando Rosa me conhecia desde menino, e está ai forte rijo para confirmar o fato. O problema é que nesse contexto (o que está dentro do texto) da fala do saudoso vice-prefeito, a quem a minha família reconhece até hoje amizade, o carinho e os favores (tanto que Cassiano era padrinho de casamento do meu pai) tem muita mágoa política. Nós éramos do MDB. Apoiávamos o Gijo Válio, com quem fundamos o partido. Cassiano Vieira era o prefeito em exercício. Foi um dos primeiros a desqualificar o objetivo da juventude na criação de um partido diferente das duas Arenas existentes. E no inicio do ano da eleição de 1976, Cassiano resolveu se debandar para o lado do Zaga, preterido pelos seus companheiros.
...Jamais dei importância às piadas ferinas do Cassiano. Principalmente quando ele textualmente dizia que me contrataram para “falar bem” do prefeito. Ora, ele como velho jornalista do tempo da “Razão” e do “Progresso” na década de 20, inclusive dono de um semanário naquele tempo da política velha, sabia melhor do que ninguém que jornalista não é pago para falar bem, mas para noticiar a verdade. Agora, se o velho Cassiano dizia que eu falei mal do prefeito era porque, com certeza, alguma coisa errada o alcaide havia feito e não me valia à pena ser cúmplice. Mas isso nunca houve. Nunca fui nomeado para Relações Públicas. E, realmente eu não falo com ninguém, como diz o texto. Principalmente com quem não conheço. Fui, teoricamente, contratado para escrever e não para falar. O “xiru das falas”, como diz o gaucho, naquele tempo era o Toninho Fiscal, sempre bem relacionado com o povo.
...Nossa! Gente, quanta falta de assunto para escrever na cidade em pleno século XXI! Ter de voltar no tempo porque a imprensa está rapada de pauta. Essa história da qual o livro de causos se refere foi escrita no jornal satírico-político Tapixi em 1976, portanto à 35 anos. De vez em quando, por falta de um tema mais profundo, o assunto vem à tona. Nunca fiquei chateado pela gozação à meu respeito. O que calou fundo no meu coração até hoje, foi ver a tristeza e a decepção dos meus pais pelo desrespeito no tratamento do ser humano. O deboche à uma família que devotava ao autor do texto, total apreço, e este, sem subterfúgio algum citava termos desbragados na tentativa de ser engraçado, como “a parentaiada fica brava”incluindo meu irmão que não morava mais na cidade e não podia se defender do seu argumento que dizia: “...Ele está no Cruzeiro do Sul e é importante, mas nunca apareceu o nome do coitado...Dizem que ganha um milhão e oitocentos lá no Cruzeiro, porque é adjunto, auxiliar de diretoria, etc, e tal...” E ele era. Meu pai ficou tão triste. Naquele mesmo dia peguei um exemplar do Tapixi, e fui bater na casa do Cassiano e na do João Ortiz onde o Miguel Arcanjo Terra estava hospedado. Não teve ora viva do Cassiano que me convencesse. E por isso ele colocou a culpa toda no redator do semanário. O jornalista, entretanto, “copiou ipse litere” e gravou em fita cassete a fala e o jeito do velho político se comunicar.
...Cassiano Vieira fez parte da nossa vida e da nossa família. Foi numa das casas dele, em seu imenso quintal onde começamos nossas vidas e até montamos o famoso cirquinho do qual a cidade inteira até hoje se lembra. Foi num aparelho de alto falante dele, numa campanha do Partido Democrata Cristão que falamos pela primeira vez num microfone. Tínhamos-lhe tanto carinho que nunca mencionamos na imprensa, em tempo algum, a sua mania de engatar marcha-ré no carro sem olhar para traz, resultando uma tragédia imensurável. O meu irmão esteve “par i passu” junto dele, como sua testemunha, quando as hostes adversárias o processaram criminalmente pelo acidente de seu filho Zuta em carro oficial da municipalidade num domingo no tempo em que ele ocupava o cargo de prefeito, logo após a morte de Nestor Fogaça. Nem foi questionado, pelo carinho que tínhamos e pelo respeito às cãs de sua velhice, o fato do Zaga não aceitá-lo como companheiro de partido. Por isso, não teve alternativa ao velho, senão a de engajar no MDB do seu sobrinho Gijo Válio, por ordem e prestigio de José França, na tentativa de arrebanhar seus votos antigos para o jovem empresário Jaime Tozzo. Tudo isso aconteceu lá em 1976. Viu como está faltando assunto em São Miguel Arcanjo.
...O velho Cassiano morreu uma semana antes do meu casamento, em julho de 1980, nos deixando uma saudade profunda e uma gratidão muito maior. Não só pelo fato dele ter nos estendido à mão. Como eu gostaria que ele tivesse me visto locutor de rádio, comandando o programa de maior audiência na região de Sorocaba. Ou então, como apresentador de jornal de TV. Essa tal arte de falar foi coisa praticamente repassada à mim por ele. E se o velho me visse falando em público para muito mais gente do que na festa do padroeiro, ou primeiro de janeiro? Foi com ele que aprendi a não ter medo do público. Quem esteve no Bernardes Júnior no Festival Lollo Terra no dia 30 de outubro, pôde observar o resultado da lapidação do trabalho de comunicação que o velho Cassiano nem sequer imaginava estar realizando em mim. O meu irmão, depois do jornal Cruzeiro do Sul, fundou a primeira revista da região de Sorocaba, chamada “Análise”, foi diretor do “Manchester News”, fundou o jornal “O Regional”. Como assessor de imprensa ficou vinte e um anos na prefeitura de Ibiúna, terra do Quinzote, do Carlão e do Una. Até agora não lhe perguntei se foi por profissionalismo, ou porque falava bem do prefeito que ele permaneceu por lá tanto tempo.
...Esse assunto me remete àquela São Miguel Arcanjo da politicalha de ontem, sem ideologia e provinciana de tudo. Ruas descalças, com muares puxando carroça na limpeza pública. Valeta para escoar água da chuva e o jornalista tendo que escrever sobre qualquer ponte velha reformada e pintada pelo Lauziro de Almeida. Escrever também sobre a moto-niveladora reabrindo um caminho tomado pelo mato, ou o pedregulhamento da estrada São Miguel à Pilar do Sul, ou mesmo São Miguel à Sete Barras. Não se podia escrever sobre as estradas rurais intransitáveis em tempo de chuva. A manchete era sempre sobre os cofres públicos abarrotados pela arrecadação de impostos. Isso, Cassiano não contou no jornal “Tapixi”, por isso o Miguel Arcanjo Terra, o Miguelzinho do Trincheira não escreveu, pois ele não viu essa realidade porque foi embora muito jovem, guardando em sua memória apenas o inesquecível Tapixi, patrono do seu jornal, hoje um importante nome de rua na cidade. Agora, depois de muito tempo, me sentindo paladino da verdade pergunto a mim mesmo se escrever isso tudo é falar mal? Por essas e outras que eu fico sempre com um pé atrás quando penso em voltar pra minha terra. Será que a mentalidade do povo evoluiu, ou ainda está 35 anos atrasada?
...Até a semana.
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