quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

FIM DE ANO! - Orlando Pinheiro


Prosa com jeito de poesia. Só por ser fim de ano)
Orlando Pinheiro

...Fim de ano! Já nem sei quem sou. Nem de onde venho, nem pra onde vou. As flores que trazia no peito, dividi com as floristas da vida. Nada mais restou. Apenas sinto que vou caminhando, como se estivesse vagando na busca de mim mesmo ou de uma ilusão perdida. Ah! Ilusão desvanecida. Sigo ao encontro comigo mesmo levando a alma ferida. Saudosa de manhãs de outrora e madrugada colorida. Coisas belas que o tempo levou. Já nem sei quem sou nesta carência. Num turbilhão de horrores, vou vivendo por viver na epidemia da violência, Coração descrente de todos os amores. Já nem sei quem sou!

...Fim de ano! Mais um circulo se fecha em desengano.O plano que tracei num instante se desfaz. Viver ou morrer, agora tanto faz. Na mente a fantasia colorida dos sonhos que sonhei ao longo desta vida. Já nem sei quem sou... É fim de ano de um pobre sentimento que se desvaneceu no véu do esquecimento. A vida é para ser vivida nua e sem adorno. Uma estrada só de ida, sem nunca haver retorno. Assim passaram meus anos de pequenino e hoje na lembrança o repicar do sino. É o toque da esperança de sempre ser menino. A meia noite é viver na solidão do agora. Nunca houve amanhã e nem amanhecer. O tempo é de quem chora a angustia de viver a dor da solidão que nunca vai embora.

...A cidade se enfeita novamente em cada esquina. De onde vem esta saudade de uns olhos de menina? Sorriso de boneca, alma cristalina. Oculta na vidraça enquanto o ano novo, explode-se em luz embriagando o povo. Assim sempre foi e assim será por certo. Apenas quero a luz daquele olhar bem perto, enquanto a festa continua lá na praça, eu fito os olhos meigos escondidos na vidraça. O velho se faz novo numa ilusão constante, um engalanar-se de falso brilha nesse instante. Luzes coloridas, como se a vida fosse, de agora para em diante suave e sempre doce. Como se no fechar de mais um ano tudo se renovasse... E o roto ser humano, a dor mais doída de sua alma aplacasse, e assim jamais vivesse no amargo desengano.

...Já nem sei quem sou, nem sei o que faço. Sei que a minha alma anseia por abraço. Desde quando trazia na mente um arsenal de plano. Hoje em meus dias são iguais é sempre um fim de ano. Sou mescla rara do último sonhador que palmilhava a vida em busca de um amor. Depois de tanto caminhar pelo deserto da alma abandonada descobri, um árido sentimento no rumo dessa estrada, que por mais longa que seja sempre leva ao nada. No meio dessa estrada a dor de uma saudade que no passar dos anos tornou-se realidade. Hoje já nem sei quem sou nesta corrida para pegar o último trem que passa pela vida, além do horizonte onde ao longe onde se vê despida, a manhã de purpurina de encanto enternecida. Ah! Manhã que sonhei voar no meu corcel alado, em busca do castelo azul do meu reino encantado, onde repousa a eterna primavera. Por certo envelheci na triste longa espera! Ah! Voar, voar... Transfundir-se no infinito do meu sonho dourado, sentir o beijo da brisa num céu todo bordado. Viver, viver triste quimera.

...Já nem sei quem sou... é fim de ano! O início de um sonho ou o findar de um plano? No céu a mesma lua de tanta serenata me espera nesta rua. Não cantarei mais para a mulher ingrata extenuante e nua. Nem tampouco oscularei a imagem sua. Lua que osculou nos meus cabelos, tristonha e timorata. Até os branquejarem com beijos cor da prata. O troféu da solidão. Noites de ilusão a cantar para quem nunca viu a lua, nem a sua luz prateada que eterna continua, a iluminar meu pulsante coração. Venho de noites e madrugadas que o tempo resguardou. De noites enluaradas que a alma resgatou. E nesse doido encanto meu, venho das madrugadas antigas que o tempo hoje esqueceu. Passageiros toda essa gente sem ternura que segue sua própria sombra no templo da amargura.

...Quem conta as contas e reconta é escravo do fracasso. É presa enredada no seu próprio laço. Ainda é tempo e o amor é eterno. Porque multiplicar a sordidez do inferno? Deixe a dor ir se embora, deixe a lágrima fluir... Porque somar? É fácil dividir. E divertir! Já naveguei por águas puras de uns olhos cristalinos, quebrantei corações com meu verso antigo, tracejando meu destino. Vamos amar pela vida neste viver que é castigo, Mas o tempo passa e a vida corre lá fora. Já nem sei quem sou. Ou sou resto de um passado que o tempo não levou. É ano novo. E preciso navegar na vida que restou. Naveguei mares sem fim no oceano do querer e hoje carrego no peito a pena de padecer. A angustia quer me matar, mas eu preciso viver. Abrace a doce ternura de tristeza que há em mim, alivia-me com um abraço essa dor que não tem fim.

...Foi no sol da minha vida que há muito tempo findou. Este chão era pequeno, era o meu mundo sereno que um vendaval carregou. Que vale agora, um novo romper do dia, ver na praça rebeldia de arruaceiros sem razão? De que adianta agora ver o sol se levantar? Uma manhã sem aurora igual a tantas raiar... Aqui dentro do meu peito, aconchegado com jeito, no bojo do violão. Guardo em mim nova esperança desde os tempos de criança. Aqui minha história encerra. Já nem sei quem sou, estou mudado, mas eu tenho desejado que melhore a minha terra. Não só por ser ano novo, tempo de reunir o povo, ali na frente do Paço. Quando a chave da cidade contradiz com a realidade eu sem poder fazer nada. Então pego a minha viola, uma moda me consola eu ponho meu pé na estrada.

...Até a semana.

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