sábado, 31 de dezembro de 2011

EU, UM DOM QUIXOTE DANTESCO - Orlando Pinheiro

Orlando Pinheiro
...Eu sou o “Segundo Personagem”, amigo do Personagem que surgiu na cabeça oca desse autor santa-cruzense de cepas hispano-lusitana. Igualzinho aquele espectro sinistro do o cavaleiro da triste figura que resolveu se revelar na matéria anterior. Eu também moro na cabeça desse inveterado poeta de noites enluaradas, mas costumo ficar em silêncio, sem mesmo questionar se sou homem ou mulher. Descobri que sou homem à moda antiga, desde quando percebi que a gente tem que tirar chacoalhar e guardar. Ao contrário do autor que fala pelos cotovelos eu sou econômico nas palavras. Sou seu lado sorumbático, tímido e triste. O mundo é uma porcaria por causa desse palavrório desnecessário e fora de hora. Desconfio das pessoas que falam de mais e minha desconfiança se avoluma muito mais se o cidadão é político.
... “O bom coração sofre em silêncio” dizia um dos pára-choques dos caminhões do Cassiano Vieira. Concordo com a frase em gênero, número e gráu. Prefiro muito mais sofrer em silêncio do que ficar gritando meus ais e uis para o povo saber. Desta vez eu não posso me calar. O que o Personagem fez na última crônica desmoralizou-me e mexeu com minha reputação. Na última crônica o Personagem encheu de frases lacrimosas compondo um cenário que não corresponde à verdade. Deu a entender ser ele o único habitante desta cabeça com liberdade para passear pelos labirintos de massa encefálica. Reclamou dos momentos de solidão e o tempo quando precisou pegar no batente.
...Estou escrevendo enquanto meu criador tira um cochilo numa noite sufocante de calor. Não sou fruto da imaginação do autor. Eu sou a imaginação do autor, o seu super ego. Aquele outro é o Id. Id ego. Com Id de idiota. Eu entro somente em entrevero onde acredito sair vencedor e por isso evito discussões estéreis por qualquer “me dá lá aquela palha”. Sou Personagem de ação, tal qual os heróis do cinema. Quando eu apareço, o Id, aquele outro personagem some. Ele sempre foge na hora do pega pra capar. Isso é rotineiro com quem tem o miolo mole, o coração mole e aquilo mole. O outro personagem é daqueles que mandam bilhetinhos com versos antigos para as menininhas que curtem na noite um barzinho e um violão. É capaz de amar até não poder mais e por isso monta cenários românticos na penumbra de um abajur lilás para conquistar a moça desencantada. E mete-lhe canções do Chico e soneto do Vinicius a noite inteira.
...Ah o amor... Como dizia o outro: “ao findar leva a paz...” Esse amor que dura alguns encontros desconhece a importância da responsabilidade. Para ele viver é uma eterna folia de Pierrô e Colombina. Eu existo. Sou o Super-ego, personagem cria do casamento da literatura com o noticiário convencional. Não sou nenhum pouco lírico. Só acredito em fatos e de fato vendo, pois desde menino aprendi que o mundo e assustador. Para mim, um olho vivo vale mais do que um coração transbordante de ternura. Não preciso da ajuda de ninguém. Tenho marcas feitas a ferro, fogo e navalha cicatrizadas pelo corpo. Sempre há muita gente espreitando meu caminho e tentando me apanhar na próxima esquina ou no último semáforo. Mas corro, canso e vivo todas as etapas.
...Sou parecido com o Omar Sharif em “Doutor Jivago”. Agora nem tanto, pois ego também envelhece. Minha aventura pela vida é como um filme “noir” repleto de fumaça e sordidez. É a vida como ela é, conforme contava Nelson Rodrigues. Não me apego em anotações de cadernos de poesia que andam debaixo do braço de botequim em botequim. O meu caso é com o aqui e o agora. Não sou de fuçar anotações pois isso é um ato que mescla maldade e ignorância. Para aquele personagem, anotações e rabiscos já são obras acabadas e não projetos de uma narrativa.
...O personagem anterior não entende nada de processo de criação literária dos dias de hoje por dificuldade na sua formação intelectual. Ele nem sequer mencionou as centenas de páginas de contos curtos dedicado à cidade aonde o vento sul muito macho, chega da franjas do mar e espalha as folhas no jardim, assim como a novidades das mulheres comadreiras da janela. É essa crença no rascunho que tem enfraquecido a literatura nos dias de hoje, transformando-a quase numa música sertaneja sem arte nenhuma. Feita só para o povo dançar. Uma música sertaneja e uma zabumba bem batida fazem o mesmo efeito.
...Muitas anotações morrem antes de se transformar num verso ou num poema. Os rabisco as vezes não passam de meros rastros da mente na busca incansável do estilo próprio. Sem anotações Jorge Amado não teria revelado seu talento, muito menos Darwin teria revolucionado o mundo com a sua teoria da evolução das espécies. O próprio Roberto Carlos, certo dia encontrou uma anotação esquecida há muitos anos em algum canto e revendo os rabiscos deu alma à ele e assim surgiu uma das suas mais belas obras: “A Rotina”, que não faz parte das apresentações de fim de ano de padrão Global para fazer lavagem cerebral no povo. As anotações são o laboratório do autor.

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