sábado, 3 de dezembro de 2011
EU, O CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA! - Orlando Pinheiro
Orlando Pinheiro
...O meu nome é “personagem” e moro na cabeça ôca ou louca desse pseudo cronista que assina aí “in riba” por mim, como o nome de Orlando Pinheiro. Nos anos 70, acho que por timidez ou vergonha ele usou o pseudônimo de Germano Garcia Neto. Era outro personagem. Como personagem, posso ser assexuado, homem ou mulher. Um de cada vez, mas nunca intermediário porque eu sou personagem, obra da criação de uma idéia. Personagem vem da palavra “persona” que em latim quer dizer máscara. As personas eram aquelas máscaras que representam o símbolo do teatro. Uma tem a boquinha sorrindo e a outra chorando, significando drama e comédia. Hoje, aproveitei uma cochilada do dono da cabeça que criou esta Rápidas, que já não são tão rápidas para falar um pouco de mim. Esta cabeça onde vivo, quando chega final de ano fica meio fora de órbita. Por isso, fica sem tempo para alimentar meu ego. Eu entendo. Fim de ano endoidece qualquer um!
...Na minha condição de personagem não devo jamais inspirar piedade. É verdade que tenho queixumes, tristezas e angústias. Em certos momentos da vida a angústia da solidão me sufoca. Entretanto, tem vez que preciso ser sagaz e esperto. São quando acontecem os surtos criativos do meu autor, mas que passam tão rápidos como chuva de verão. Muitas idéias geniais, criações sensacionais estão encerradas num caderninho onde ele anota tudo. Nada de valor. Apenas risco e rabisco que nem quer dizer Francisco. É ele que costumar dizer: “o pau que bate em Chico não bate em Francisco”. Eu, pobre personagem, ao longo do tempo já fiquei guardado num gravador de fita cacete, num gravador de rolo e depois num CD. O caderninho, ali, sempre do lado. Vai que de repente surge uma idéia genial. Quantas vezes eu o vi levantar no meio da noite para anotar um sonho extraordinário, mas que no amanhecer do dia seguinte era descartado. Como personagem sou um sobrevivente das bravatas, arroubos e heroísmo para olhos iluminados e rostos meigos de moças em profusões. Com o tempo isso foi passando. Agora, tudo não passa de um relicário de recordações na base do “tantas fiz, mas agora tanto faz”.
...Ao longo dos anos, eu, personagem fui criando uma carapaça protetora para agüentar melhor as oscilações de humor do meu autor. Sina de quem mora dentro de uma cabeça de um sonhador que gosta de passar para o papel tudo que idealiza, mas depois se apaga feito fumaça no ar. Esse tipo de gente nunca tem sossego. Tive que descobrir isso na marra. Observando alguns rabiscos do caderno desse colunista, tudo se revela como o negativo em preto e branco de diversas fases de sua alma aflita. Um dos momentos de profundo êxtase está num dos seus livros, quando ele escreve sobre os olhos cansados do seu pai, como se fossem os mesmos olhos do Cristo do lenço da Verônica estendido ao povo na Semana Santa. É profunda ternura quando ele memoriza Santa Cruz dos Matos e isso faz verter água viva dos seus olhos opacos.
...Se eu fosse falar da minha vida de personagem, daria uma romance com centenas de capítulos diferentes. O dono dessa cabeça já guarda nas suas coisas pastas e mais pastas da coluna “Rápidas” já publicadas, creio que desde 1977, quando entrei na vida dele. Fora isso, imaginem o que tanto ele guarda. Textos de radio novela que nunca foram ao ar, peças de teatro jamais encenadas. Ah! E os sonetos do caderninho dele! Muitos foram feitos em mesa de bar, como fazem todos os poetas boêmios. Entretanto, a única coisa que esse poeta bebia era água mineral. E entrava em transe... Não é coisa de louco? Eu, personagem, já substitui, como um ator coadjuvante, musas inconfessáveis de poemas recheados de segredos e nomes impronunciáveis. Quando ele se casou pensei que a coisas tomavam seu rumo, mas não tomou.
...Às vezes tenho a impressão de que seus textos são feitos num momento febril. Eu explico: Muitos personagens, tal como eu, também entraram e ficaram para sempre na sua vida e de vez em quando afloram em forma de saudade. Quando escapa um desses personagens saudosistas, aí o bicho pega! È quando ele deixa o caderninho de rascunho e procura ansioso pelo violão empoeirado, de cordas enferrujadas como seu sentimento de velho moço e descerra no peito a rubra cortina do tempo que já teve seu tempo em forma de um coração. Então ele estreita no peito sua musa com ansiedade e sofreguidão. Lembro-me de certa vez, quando ele rabiscando uma canção dizia ter roçado os dedos rudes na roupa suave de tão esquiva dama. Idiotice dele! Musa é sempre esquiva... Musa foge sempre! O seu estado de graça dura tão pouco e para não fugir do lugar comum, ou quebrar as regras da vida que foi escrita para ser vivida, ele garante a minha sobrevivência.
...Não pretendo ser um personagem ranheta na mente de um autor. Longe de mim ser rancoroso ou indiscreto. Gosto por demais desse santa-cruzense e da sua simplicidade de gente simples da roça. Eu gostaria de saber capturar musas para dar-lhe de presente, mas não sei nem por onde começar. Uma vez pensei que fosse da mesma maneira como se caça borboletas, mas me disseram que elas têm o mesmo encanto do arco-íris, que encanta a alma, embeleza a paisagem, mas a gente jamais sabe se ele existe mesmo, ou é apenas uma ilusão de ótica que na realidade não passam de respingo de chuvas. Arco íris então, deve ser de respingo colorido de lágrima de poeta.
...Não posso deixar de constatar que os livros o despertaram, principalmente determinados trechos de D. Quixote e assim a sua vida foi se cobrindo de paginas e mais páginas que se estenderam por anos e anos de leitura devoradora e fatigante. Vejo que nas conversas do meu autor e nos seus textos ele sempre tenta passar uma esperança nova, coisa que nem sempre consegue, pois muitas vezes ele não tem nem para si um pouco dessa esperança que oferece. Não que ele seja mentiroso e promesseiro. Não, por favor. Não me interprete mal. Ele é um autor conciso. Ele é vitima da sua fúria criativa e pertence ao grupo dos grandes sonhadores. Por isso, eu, seu personagem, ao longo desse tempo, já tomei para ele todas as formas e cores. E nesta cabeça vou vivendo. A única coisa difícil que me incomoda, é que não é fácil, aliás, nunca foi simples acompanhar o ritmo da batida do seu coração. Sem pedantismo. Eu sou um personagem, entre tantos que essa cabeça criou.
...Até a semana.
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