...Às vezes volto triste de São Miguel Arcanjo. Estivemos participando do Prêmio Lollo Terra de Musica Popular, e de repente me dei conta que já não sou mais o filho da terra. Sou para muitos, um desconhecido. Percebo ser estranho até pelos meus amigos das páginas de relacionamento, tal como Orkut e Face Book. Parece que somos amigos só de mentirinha, porque quando estamos ao vivo, em cores e de corpo presente, passamos despercebidos. Por essas e outras é que não levo a sério as mensagens que recebo todos os dias pela internet. Esses amigos são apenas ícones sorridentes e coloridos. Só existem em imagem virtual, incapazes de um abraço e de um olhar franco nos olhos. Agora, junto aos velhos companheiros, a conversa rolou e a gente se esbaldou de lembranças. Aquele pessoal de cabelos grisalhos, outros sem cabelos, é gente da geração dos anos de chumbo e muitos deles ainda nem chegaram na terceira idade.
...Domingo de chuva e vento frio em São Miguel Arcanjo. Clima típico de inverno em plena primavera. Passei uma tarde inteira quebrando a cabeça com o Ary Frutuoso lá clube, porque o DVD onde estava gravado o documentário dos 40 anos de festival de São Miguel não abria em hipótese alguma no equipamento responsável pela transmissão da imagem no telão. Só faltava essa. Trabalhar exaustivamente na pesquisa para depois de uma viagem longa e um dia estressante o material não ser apresentado. Eu já estava no “ponto” por conta do meu sapato que teve a sola inteirinha descolada na chuva. Calcei um sapato do meu cunhado, o qual tem uma lapa de pé e preenchi o espaço vazio com saquinho plástico. Mas por sorte, pura sorte mesmo, minha excelentíssima esposa, e bota excelentíssima nisso, salvou nossa noite. Ela tinha arquivado o material no seu pen-drive e o computador aceitou. Justiça seja feita! Eu apenas escrevo os textos, pesquiso as fotos, mas quem faz a parte difícil de edição é ela. E faz com muita arte e capricho.
...Outra coisa que tem me chamado a atenção quando vou à São Miguel, é a ausência de pessoas na praça. No domingo do festival garoava e estava muito frio, evidentemente que não havia ninguém no passeio público. No meu tempo, se o domingo era de frio, o povo se aglomerava nos botequins tomando cachaça para se esquentar. Pasmem! Nos bares ao derredor, não havia mais que duas ou três pessoas. O Silvio Santos, o Faustão e o Gugu acabaram com a convivência social da minha cidade. Outros enterram a cabeça nas páginas da internet onde os amigos virtuais, mesmo de mentirinha, massageiam o ego do internauta. Quando recebi o convite do Dudu Terra para fazer um documentário sobre os festivais de São Miguel Arcanjo, achei que era uma oportunidade para convidar aquela enormidade de amigos que eu tenho no Orkut e no Face Book para conhecerem a realidade de São Miguel dos anos 70. E eu só adiciono exclusivamente, pessoas de minha cidade, nas minhas páginas de interação social. De todos esses amigos de convívio diário, só encontrei por lá, a minha prima Hidneya Fogaça, que disse estar ali pelo meu convite. Fiquei feliz igual menino que ganha pirulito. Azar de quem não foi. Perdeu um espetáculo extraordinário com o grupo “Seresteiros Urbanos”. Quem foi e não me viu, perdeu também uma boa prosa e um bom causo.
...Lembrando dos cabelos prateados dos veteranos, e dos carecas que estavam também rememorando os 40 anos de festival, me lembrei do meu filho que tem 23 anos e num dia deste, ele me questionou de um jeito que me surpreendeu. Observando a minha luta pela vida ainda com muito trabalho pela frente, mesmo depois de aposentado, ele quis saber por que, em vez de escrever sem parar desde menino, eu não batia umas bolas pelos campinhos da Vila Nova. Na visão dele, eu teria muito mais chance de vencer na vida se jogasse futebol. Para ele, e para muitos que pensam da mesma maneira, nestas alturas da vida eu poderia ter conseguido estabilidade financeira para atravessar o caminho trôpego da velhice, quando esta chegar. Nem respondi! Tem coisas que parecem simples, mas é de uma complexidade enorme. Nunca levei jeito para futebol Nas aulas de educação física quando formavam um time já me jogavam na reserva. Se pudesse, me jogavam fora da quadra.
...Naquele tempo, quando eu era um jovem romântico dos anos 70, ser bom de bola não era garantia de sucesso tal qual é hoje. Tínhamos na São Miguel Arcanjo de então: Canhoteiro, Reynaldinho e Ariosto. Quando esses três estavam no mesmo time, eram imbatíveis. Quando jogavam em times diferentes provavelmente disputavam final de campeonatos em verdadeiros duelos. Dois deles foram tentar a carreira em categoria de base em times grandes da capital, mas não brilharam como na quadra do Colégio Nestor Fogaça. O processo de seleção era difícil e a concorrência acirrada. Passada e euforia da idade vieram as necessidades de lutar pela vida e esses craques tiveram de se adequar na ciranda do emprego, salário no fim do mês e projetar o futuro fora do futebol. Se esses não avançaram no futebol, o que dizer de mim?
...O meu jogo sempre foi outro. Mais do que bola eu queria driblar a vida com as letras. Vi-me temporão contando dinheiro dos outros, enquanto me encantava com música e festival, há quarenta anos. Sempre acreditei que as letras seduziam mais e as canções, nem se fala. Contei ao meu filho que se por um lado eu não tinha nenhuma afinidade com a bola, minha essência estava em dominar as letras e com elas conquistar o mundo de valores diferentes. Cada um faz o que pode. E naquele tempo os craques não eram galácticos e nem ganhavam como os “fenômenos” de hoje. Se de um lado, os grandes nomes do futebol proporcionam emoções que fazem os estádios tremerem, nós que escrevemos a vida inteira, mesmo depois dos 50, viajamos em época, gerações e emoções marcantes jogando com as palavras, fazendo embaixadinhas com a gramática, ligando numa só noite o passado e o presente num turbilhão de emoções indescritíveis como essa realizada no Sétimo Premio Lollo Terra, onde desfilaram num só tempo, com o mesmo sorriso de alegria nossos companheiros que se foram com aqueles que estão chegando. Um gol de placa! Mesmo que os amigos do Orkut e do Face Book, os convidados especiais não tenham vistos.
...Até a semana.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
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