sexta-feira, 21 de outubro de 2011

NOITES, MUSAS E SERENATAS - Orlando Pinheiro


...Eu sou uma daquelas pessoas que amou muito. Jamais passei pela vida em brancas nuvens em termo de amor. E como amei! Penso que passei a minha vida inteira conjugando o verbo amar, mas sempre no pretérito imperfeito. A vontade mesmo era declinar o verbo amar no presente, pensando no futuro mais que perfeito. Futuro feito de sonhos azuis que muitas vezes acabavam em desilusões cinzas. Nessa rotina transformei-me num poeta solitário em busca de musas em multidões voláteis.


...A adolescência me encontrou mirando ternos olhos azuis, como um céu de safira. Outras vezes, mergulhado em encantadores olhos verdes, como se fossem liquida esmeralda. Ora me encantava um vulto feminino esbelto, quando o sol amorenando as sombras da tarde no poente lhe emprestava um tom bronzeado. Como miríades de estrelas, esses olhos me encantaram à ponto de eu cantar pelas noites de São Miguel Arcanjo de outrora, melodias que saiam do fundo da alma, na esperança de que uma folha de janela se abrisse e como num oratório, e aparecesse um vulto suave de mulher santificada pelo romantismo que me arrebatava a alma. Se essa janela se abrisse por inteiro, o amor era tamanho que eu invadiria com toda a minha ternura aquele dossel de baldaquino para me entrelaçar na suavidade de peles e lençóis. Naquele quadrante de ruas descalças da pequenina São Miguel de outrora, não havia quem amasse mais do que eu, na tentativa ufana de conjugar o verbo amar em todos os tempos, em pleno viçor da minha primavera.


...Amar era como uma religião. O estado contemplativo do poeta ante os olhos onde o amor havia edificado seu altar. Belezas alucinantes que desabrochavam como flores em ciranda na antiga praça adornada de arbustos e cedrinhos que jogavam cheiros no hálito da noite. Eu sempre tive a certeza de que o homem nasceu para ser feliz. Por isso, quando a noite era de plenilúnio e a lua desmaiava na colcha azul do céu, a minha alma serenava e em feitio de oração, minha voz trêmula, rasgava com sutileza o fino véu da noite: “Ó lua branca de fulgores e de encantos/Se és verdade que ao amor tu das abrigo/ Ó vem tirar dos olhos meus o pranto/Ó vem matar esta paixão que anda comigo...”


...Acompanhava-me sempre nessa peregrinação até certo ponto estranho para alguns, além da minha lira, o meu amigo Canhoteiro. Nesse tempo ele era um aplaudido atleta assediado pelas moçoilas, numa espécie de Neymar dos anos 70. Não podíamos nos esquecer da garrafa de cachaça com sucupira, peça importante nessa romagem para preservar a garganta dos engasgos da friagem da noite. Enquanto andávamos pelas ruas desertas eu dizia ao Canhoteiro que junto de nós estavam as nove musas, filhas de Mnemosine, Era Calíope quem me aveludava a voz para não agredir o silêncio da madrugada, enquanto Clio, em sonhos, proclamava o ardor do amor à bela adormecida. Erato cochichava no ouvido da donzela e punha-lhe o dom da amabilidade para ela acordar docemente e iluminar a noite com a luz de um sorriso mágico. Euterpe deixava a melodia prazeirosa, doce de se ouvir. Melpômene traduzia à ela o encanto da poesia dos meus versos. Por impulso de Polímnia, a gente ficaria ali cantando sem parar até o sol desfraldar a cortina da noite. E das mãos que acenavam com gestos de beijos, Thalia transformava aquela figura da janela na mais bela flor que já existiu. Ao som da lira em tons plangentes, nos braços invisíveis de Terpsicore ela valsava levemente ao ritmo da canção. Era o ápice do milagre de Urânia, a musa que transformava aquele pedaço de rua sem ladrilhos e sem calçada, num espaço celestial.


...Hoje por conta dos cabelos brancos, insisto em me convencer que a paixão é um amor com prazo de validade. Acredito até que as princesas dos meus castelos de sonho pretendiam beijar o sapo certo. Era um tempo em que a sedução tinha ainda que ser aprimorada, não para o sexo, mas para a conquista da pessoa amada. Em São Miguel do meu tempo não era possível amar todas as mulheres, mas a gente continuava tentando. Faz tempo que meu coração jovem galopava ansioso em busca de um abraço, quando os lábios falavam o código de amor e a minha alma de jovem explodia como uma granada de tanta ternura que se estilhaçava em forma de versos. A minha solidão de cabelos brancos quer descrer que eu já tenha amado um dia. Mas eu amei! E como amei.

...Até a semana

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