...O fim do ano já chegou e antes de despejarem pelas calçadas brinquedos eletrônicos e luzinhas coloridas ao som de música de harpas importadas do Paraguai, a gente tem de passar pelo cantochão gregoriano fúnebre do dia de finados, para alegria dos vendedores de flores, os quais ficam plantados uma eternidade (eternidade é lá dentro), vendendo simples margaridas e crisântemos pelo preço de orquídea rara. Sempre foi assim e assim será, não só em São Miguel Arcanjo, mas em todos os cemitérios das Américas colonizadas pelo povo luso-hispano, cheio de crendices e superstição.
...O homem tem medo da morte, assim como a criança tem medo do escuro. Foi calcado nele o temor pelo desconhecido. Assim sendo, todo mundo quer ir pro céu, mas não quer de jeito nenhum passar pelo vale da sombra da morte. Mesmo que o Salmo 23 garanta que o destinatário não precisa temer mal algum, ninguém quer saber dessa prosa, mais fora de hora. Se bem que para nascer e morrer não tem tempo. Qualquer hora é hora.
...Antes da gente pagar pro Bianinho pintar os túmulos para depois irmos chorar a nossa saudade, que tal saber como é de verdade esse tal dia de finados? Tem historiador que diz que essa celebração começou no século IV, quando visitavam as catacumbas dos mártires do cristianismo. Mas, o culto aos mortos vem desde o Egito antigo. Nós só introduzimos um ritual pagão na liturgia cristã. Para os mais antigos, lá do Velho Testamento pra traz, os mortos eram como semente. A escolha da data se deu em virtude do dia de todos os santos, 1º de novembro, pois os religiosos acreditavam que todas as pessoas, ao morrerem em santidade, entravam em estado de graça, mesmo não sendo canonizados. A igreja católica encontra apoio no II Livro de Macabeus (12:43-46), o chamado dia dos fieis defuntos.
...Os ocidentais eram grosseiramente pobres e ignorantes. Um solo fértil para a religião do medo e da superstição se impor com seu poder até além túmulo. Teria que rezar pelos mortos em pecado, ou aqueles que estavam na sala de espera do purgatório para a diminuição da pena das almas. Ainda bem que um decreto papal de Bento XVI, aboliu de vez essa crendice que hoje não assusta mais ninguém. Para o judaísmo, pai do nosso cristianismo, as recompensas e os castigos eram recebidos neste mundo mesmo.
...Tem um ditado popular que diz: “Feliz daquele que após ver a sombra da morte passa a viver a luz da vida”. Em várias sociedades os mortos continuam existindo em forma de espírito, numa íntima proximidade com os vivos. Eles teriam condição de oferecer aos que ficaram segurança e proteção. Em troca, fazem sacrifícios, acendem velas nos túmulos onde as almas ou espíritos se ligam à este mundo pelo pensamento.É o chamado conceito teológico da transmigração.
...No tempo quando eu era menino de pés descalços das ruas de São Miguel, cemitério era um lugar tétrico e tenebroso. Só se transformava em “campo santo” no dia dois de novembro quando se enchia de flores e de vivos espalhados pelas ruelas dos jazigos. Na juventude fui um dos únicos privilegiados que tinha autorização do pai da garota para namorar atrás do cemitério. A chácara do meu sogro ficava logo depois da cidade dos mortos. Nem mesmo a noite enfarruscada de vento sul me causaram medo sob o efeito do hormônio e da adrenalina, quando em altas horas da noite eu passava ao lado do muro que dividia a rua dos vivos em horas mortas, mesmo quando soavam as doze badaladas noturnas. Não é o medo da morte que me assusta.
Às vezes é pior seguir vivendo na vida sem jamais uma vez ser feliz.
...O Salmo 91 traz em seu contexto algumas frases importantes para o dia de hoje tal como: “Livra-me do laço do passarinheiro; da peste perniciosa...”. “Não terás medo do terror da noite e nem da seta que voa de dia...”. Desde aquele tempo já existiam as armadilhas multivariadas. O terror da noite basta a gente imaginar um lugar sem as benesses da eletricidade. Eu me lembro de santa Cruz dos Matos quando não havia luz e a escuridão como um manto negro, tomava conta de tudo. No medo do povo era quando as almas penadas, os fantasmas e assombrações vagavam pelos campos. A seta que voa de dia, hoje pode ser uma bala perdida numa esquina qualquer em algum canto de qualquer cidade.
...Que tal se nestes tempos, livres da superstição exacerbada e da religião castradora, pensássemos na grandeza de observar a Terra nos cosmos, uma insignificância de planeta azul e acreditar que vivemos e nos alimentamos do resto de luz que o sol joga fora. Que a essência genética da eternidade é um grande mistério e que na concepção judaico-cristã somos filhos de Adamah (Adão)-que quer dizer, feito da terra. E que possuímos em nosso corpo os mesmos elementos do universo e que Deus nos fez seres pensantes com um cérebro dividido em dois e dois olhos direcionados. Saber com convicção que somos o jardineiro da terra, conforme está escrito em Gênesis e não somos santos nem angélicos. Guardamos inexplicavelmente dentro de nós a espiritualidade ancestral, que já existia antes do antes. Antes do Big Band, se você crê assim e sabe que caos não é sinônimo de desordem, mas a concepção do nada que passou existir, que se fragmentou em prótons e nêutrons, agrupando-se dinamicamente. Por isso é que eu sinto e você sente também que nos mínimo fragmento Deus está. E é por isso é que sou pó e ao pó um dia retornarei.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário