sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DIA DOS PROFESSORES:HOMENAGEM AOS HERÓIS AMEAÇADOS - Orlando Pinheiro

...Hoje quase não fazem mais aquela festa no dia dos professores. No meu tempo que era o mesmo tempo de muitos companheiros aí de São Miguel, chegávamos fechar o Clube Bernardes Júnior para reunir o colégio todo para fazermos um espetáculo aos nossos mestres. Mestre é um título honorífico, respeitoso e bem merecido. Atualmente professor virou saco de pancada de aluno psicopata, correndo o risco de ser agredido ou levar um tiro pelas costas. O que se pode esperar no futuro de um bando de delinqüente que os pais mandam para a escola, não pensando na formação intelectual do seu filho, mas para ela fazer o papel dos genitores omissos.

...Eu tinha sete anos quando entrei na escola. Naquele tempo não havia maternal, nem pré-primário e outras coisas. A gente entrava na classe já para o primeiro dia de aula. No pátio, em fila dupla caminhávamos para sala em silêncio. Quando comecei juntar as primeiras sílabas, senti o resultado como um alumbramento. A professora era a dona Graziela Filomena Pascale, cheia de carinho e cuidado. Graça à essa generosidade foi que eu entrei em contato com aquilo que a vida tem de mais sagrado: o conhecimento. O primeiro ano era uma classe mista onde estavam a Rosângela Hakim, a Ivone dos Santos, entre outras. Meus olhinhos de menino brilhavam pela Lúcia Helena, filha do diretor do Grupo que estudava conosco. Ela ficou pouco tempo, assim como a dona Graziela que foi substituída pela Conceição França, esposa do Ico.

...No segundo ano, a minha professora era linda de fechar quarteirão. A inesquecível Carmem Santos. Já havíamos deixado para trás a cartilha “Caminho Suave”, uma genialidade pedagógica de Branca Alves de lima que acompanhou gerações desde 1948 até a década de 1990, quando o mundo começou a se inovar sob o peso da modernidade. Dona Carmem e a maioria das professoras chegavam de Itapetininga no ônibus das sete e meia. Nem mesmo os professores do ginásio possuíam carro naquele tempo. Eu gostava de chamar a dona Carmem para tirar minhas dúvidas só para sentir o seu perfume. Era um momento de encantamento. Nosso maior orgulho era já poder ler o “Segundo Livro Sodré”.

...Chamávamos todas as professoras de “dona”.E assim foi até o ginásio, quando já era o seu Artur, o seu Waldemar, a dona Miriam, a dona Elza... Todos os alunos caprichavam no borrador, um caderno para uso em classe. Qualquer dia falo sobre o caderno de caligrafia que está fazendo falta pra meninada de hoje! Éramos disciplinados. Tínhamos medo de levar bronca na escola e depois em casa. Por isso a gente queimava a massa cinzenta da cabeça até o último tálamo (não confundir com talo) para passar de ano, no mínimo com nota 99. Jamais tive dúvidas do que há de aproveitável em minha pessoa é em grande parte, resultado do trabalho dessas professoras admiráveis. Por isso, é que fico com um pé atrás com relação às novas gerações de brasileiros que vem por aí quebrando escola e intimidando todo mundo.

...No terceiro ano, a nossa professora era a dona Sidney Nery Silvério, umas das mais bonitas do Grupo Escolar José Gomide de Castro. Nós já conseguíamos ler o “Livro Brasília”, recém lançado pelo Ministério da Educação. Dona Sidney também ficou pouco tempo e em seu lugar veio a professora Matilde de Moraes Terra que me ensinou gostar de teatro até hoje. Sempre quando piso num palco, ou mesmo num tablado, seja lá por qualquer razão, a dona Matilde está sempre me dirigindo, sentada na cadeira da frente. Entre outras coisas, ela me ensinou a diferenciar a narração da redação e foi esse detalhe que me fez jornalista muitos anos depois. O que seria de mim se não fossem elas, as professoras? É verdade que a vida nos mostra outras formas de aprendizagem, mas as primeiras lições marcaram para sempre de forma especial o meu caminho pelo mundo.

...O quarto ano nos trouxe a professora Maria Aparecida Amaral. Ela também lecionava História no ginásio. A maior felicidade nossa, era ler de ponta a ponta o livro “O Tesouro da Criança”. Em dias alternados a gente se reunia na classe da professora Maria Inês França para aprendermos canto orfeônico, conforme já contei num dos meus livros. A dona Maria Aparecida também se licenciou. Em seu lugar veio novamente a dona Matilde. Eu vejo nitidamente com os olhos da lembrança, o seu anel de pedra verde, gesticulando um ameaçador castigo atrás da porta aos bagunceiros. E eles iam cabisbaixos no canto da sala. Não revidavam e nem agrediam. Dona Matilde complementou o meu gosto pela arte e pela literatura. Qualquer hora também falo sobre o caderno de linguagem que hoje faz falta até pra vestibulando... Tanto que minha redação no exame final de quarto ano mereceu elogios da examinadora, a hoje escritora e poetiza Aziza Bittar, que mostrou a minha prova para o Gomide inteiro.

...Foi assim que aprendemos o “beabá”. Sem internet, sem computadores, sem nenhum “kit” do que quer que fosse. Nosso “kit” era apenas uma régua e um estojo numa bolsa velha. Só tínhamos muita leitura para deixar a cabeça preparada, livre de qualquer influência. Hoje é triste saber que essas pessoas, verdadeiros alicerces de nossas vidas têm que fazer greve ou recorrer a várias formas de protestos, numa luta quase inglória pela valorização e reconhecimento profissional. Uma nação, onde o professor tem que ir às ruas e protestar por um salário digno, tem alguma coisa errada. Professor é o mais nobre dos ofícios desde a Grécia antiga.Vivemos num aprendizado constante e sabemos que pelas mãos da professora, todo caminho é suave.
...Até a semana.

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