sexta-feira, 2 de março de 2012
MEU ONTEM E MEU HOJE - Orlando Pinheiro
...Para mim terceira idade não existe. Não me considero velho apesar de carregar o peso dos anos e dos desenganos. Sou deveras nostálgico, isso sim. Tanto que mergulhei no universo das minhas fotos antigas tentando resgatar uma São Miguel Arcanjo de um tempo que já teve seu tempo. Sou um daqueles remanescentes que viu ao vivo o largo da matriz, a velha Praça Tenente Urias toda cercada de cedrinho, de ruelas cascalhadas e bancos em granitos com anúncio das casas comerciais patrocinadoras do assento, sempre circundando o espaço circular onde havia um postinho no estilo rococó bem no centro. Tempos bons. As mocinhas rodando, o cinema fervilhando e a quermesse na barraquinha terminando. A praça daquele tempo era bem mais bonita do que hoje, com arbustos trabalhados artisticamente pelo João Cornélio e seus funcionários.
...O coreto, um memorial dos anos quarenta que nem existe mais. Nele se assentavam os soldados da harmonia sob a batuta do maestro Pedrão pai do Ordep, que também é Pedro de traz pra frente. As meninas de saia rodada já possuíam aspectos de senhora. Estava na reta final para casar. Às vezes elas nem sabiam o que ia acontecer após saírem da porta igreja. Elas mal sabiam que a festa era depois... Mas já estavam de enxoval pronto, bordados a mão. Algumas, não raras até, sabiam com certa discrição a arte do depois do sim diante do padre, mas fingiam que não sabiam. Muitas até tinham feito um preparatório antes, uma espécie de exame simulado. Esquisito o tal de ser humano. Tanto homem quanto mulher. Se a gente observar bem de perto verá que ninguém é perfeito.
...Lembrar dessas coisas é viver novamente, porque já foi dito que esquecer é morrer duas vezes. Tai o tal de Alzheimer que não me deixa mentir. A única coisa imutável na rolança do tempo é a torre da igreja. A gente consegue vê-la de qualquer ponto da cidade. Tempos se foram, quando nós, meninos de pés descalços da Vila Nova, avaliávamos o prestigio das pessoas pela distância que elas moravam do largo da matriz. Depois da praça principal, tinha a praça do Dante, a praça da Bandeira... A estátua de bronze do Dante Carraro de corpo inteiro, feito uma sentinela do Paço Municipal. Moça de boa família naquele tempo jamais ousaria ir com o namorado daqueles lados da prefeitura, quase à margem do ribeirão do Passinho. Havia mãe que só para assustar as filhas chamavam aquele lugar de praça do “andante”.
...Hoje só resta a torre. A igreja parece um túmulo vazio. Um templo sem almas. O sino não dobra mais às seis horas da tarde, nem quando alguém morre. Nos dias de hoje, quem presta atenção nisso? Tempo bom aquele quando a gente podia sair pelas ruas à qualquer hora sem medo de ser assaltado por um desses feiinhos viciados em cocaína. Esses zumbis da droga pesada jamais sentiram o sabor do fumo de corda que meu pai, o Virgilio Rufino e o Gabriel Cassú faziam. Proibiram o tabaco e tentam liberar a maconha... Não dá pra entender a cabeça desse povo. No máximo, havia uma ou outra ocorrência policial atendida pelo Orestes, cunhado do Rayo e pelo Alfredão, pai do Osmar. Era para apaziguar os mesmos arruaceiros de sempre, entre os quais o Miguel Chaim, que de tanta valentia tombou em decúbito dorsal, ou o Zé de Campos que dava um trabalho dos diabos para entrar no jipinho preto e branco.
...O merchandising da droga começou a ser feito neste chão em ritmo “picado”. De pouquinho em pouquinho nos bailinhos de fim de semana. Primeiro veio o tal de coração verde, nome dado ao comprimido “Perventim”. Outros achavam que colocar “Melhoral” no cigarro deixava turbinado. Alguns jogavam cinzas de cigarro na cerveja para ficar doidão. Foi nessa dança de acasalamento, na troca de passos de garoto para homem que o bicho pegou e não largou mais, feito um cancro que se entranhou até na alma do indivíduo. Pintou a primeira boca de fumo por conta de um rapaz falante que veio das Docas de Santos e fez ponto num dos bares do centro. A cidade começava a agonizar!
...Ainda me lembro do velho mercado municipal na Rua Monsenhor Henrique Volta. Depois, ali foi sede da banda, onde o Brás Alves Munhoz fez as mais belas festas de Santo Antonio. As ruas principais da cidade eram pedregulhadas. Somente o quadrilátero do centro possuía lajota. Lá pelos lados do cemitério havia algumas casas geminadas, construções bem grudadinhas e depois, noutros cantos adjacentes, continuou-se executando essa mesma forma de construção o que deu esse aspecto singular à cidade, onde toda a arte arquitetônica se mistura como quadro de uma tela “naif”. O povo ainda tem o costume de cuidar mais da fachada do que dos fundos. Aliás, existem alguns que constroem um muro na frente, como se a casa fosse um condomínio de luxo particular para uma família só.
...Tempo em que não se falava de franquia de “fast food” gosmento com nome americano. O melhor “fast food” que eu já comi na minha vida foi o bauru do Jorge da pastelaria, num tempo em que não havia presunto. Então, ele abria uma lata de carne apresuntada da Wilson e assava aquilo com queijo e tomate e agente saia lambendo os beiços. Isso quando a gente não convidava “ela” para comer um bauru no “reservado” do Jorge.
...São Miguel Arcanjo bem te vejo... São Miguel Arcanjo bem te lembro! Cidade do tempo em que se vendia banana em penca de uma dúzia. Quando uma caixa de ovos tinha doze e não penas dez como agora. A gente trazia de Santa Cruz dos Matos ovos empalhados de galinha azulega porque era mais forte. São Miguel do tempo em que se mantinha a porta da igreja sempre aberta. Se acabasse gasolina, o cidadão pegava um galão de cinco litros, ou alguém aparecia logo para dar socorro sem cobrar nada. Estou ficando velho mesmo. Só não posso deixar crescer teia de aranha no cérebro e nem enferrujar as idéias. O resto a gente ajeita.
...Até a semana.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A ARTE DE FALAR - Orlando Pinheiro
...Oi gente. Olhem eu aqui no jornal do Kalylo. É a segunda vez que estou no SMA News. Escrevi neste semanário até outubro de 2004. Por isso, vamos continuar a prosa de onde paramos, há quase sete anos. Interessante esta vida de jornalista! Parece cigano. Ora está aqui, ali e acolá. Certa vez, um dos meus leitores questionou-me sobre a forma dos meus artigos estarem sempre na primeira pessoa: eu prá lá, eu prá cá... eu fui. Ele me indagava se a forma correta não é na terceira pessoa, conforme está escrito nos melhores guias e manuais modernos de redação e estilo. E é! E foi na terceira pessoa que principiei escrevendo esta coluna no tempo do Diário de Sorocaba, lá nos idos de 1977. Depois de certo tempo, percebi estar me distanciando das pessoas e me tornando um tanto formal. Nunca fui chegado à muita formalidades e rapapés. Penso que sou até meio bruto, rústico e sistemático. À não ser quando a escrita é discursiva. Então a gente muda o teor da forma.
...Dá pra imaginar, usar da terceira pessoa para se dirigir ao Góes, velho amigo de tantos janeiros. Dizer mais ou menos assim: “Fomos nós, o Góes e eu, à torre da matriz até alcançarmos o campanário onde retinimos aquele instrumento de bronze que o vulgo chama de sino...” Tenho dificuldades em chamar o Dr. José Benedito Amgartem de doutor por ter convivido com ele desde menino, no tempo do grupo escolar, na fanfarra do ginásio Virgílio Maynard, ou entregando leite na charrete do Toninho primo dele. Se eu tiver de falar em algum lugar onde se exija esse pronome de tratamento, pelo qual uma autoridade é reconhecida, assim farei, como já fiz ao anunciar o Meritíssimo Juiz de Direito, Dr. João de Oliveira Rodrigues; ou o Doutor José Rubens Bismara, durante a entrega de um título de Cidadão Emérito na Câmara de Sorocaba. Inclusive o Revmo. Pe. Marivaldo de Oliveira receberá as devidas honras do pronome de tratamento quando no exercício de suas funções sacerdotais. A comunicação hoje é mais direta. Em determinados casos, dispensa-se o chamamento cerimonial-como se qualificam esses adjetivos nominais. Eu me recordo de ter visitado o Rayo muitas vezes na Gerência Regional da Nossa Caixa em Sorocaba. Trabalhávamos próximos, à distância de um quarteirão. Em meados dos anos 80 estive na agência central da Nossa Caixa, na Rua XV de Novembro em São Paulo, onde todo cerimonioso perguntei à secretária de gabinete pelo diretor de patrimônio Dr. Osvaldino Meiga. É uma mudança da água para o vinho, mas o socialmente correto exige. E o mais interessante... Isso tudo, aprendi com o padre Chico nos cerimoniais para receber o bispo diocesano. Aprendemos com ele até servir uma mesa para banquete. Ao longo da vida colocamos esse aprendizado em prática. Esse “colocamos”, não é só eu: é o Góes, o Pedro Estácio, o Luiz Ratto Neto e o Marivaldo!
...Esses tratamentos diferenciados tornam-se jocosos em reuniões de políticos, seja na Assembléia, no Senado e com muito mais dissonância nas câmaras municipais de cidades pequenas. Nestas últimas, os oradores nem sempre são preparados e por isso tropeçam nas palavras, ou assassinam a concordância verbal. Misturam o tu com você, num verdadeiro crime contra a língua portuguesa. Pior do que eles, só mesmo as letras das músicas do Marcelo Teló. Por essas e outras, “Rápidas” aderiu ao estilo coloquial da primeira pessoa do singular. Como escrever: “estivemos no festival Lollo Terra onde apresentamos um documentário retroativo aos 40 anos de realização do certame musical no qual o veterano compositor Antonio Cláudio Nogueira sagrou-se com sua melodia...” Soa um tanto pedante. Há ocasiões onde não tem como fugir à regra e se faz necessário lapidar com esmero uma redação com técnica e isso deveria alcançar petições e requerimentos da Casa de Leis.
...Esta coluna é um memorial das minhas aventuras e desventuras pela São Miguel Arcanjo do meu tempo, quando se falava o “nhengatu” autóctone, o caipirês sonoro destas bandas. Ora, se você não sabe nem o que é nhengatu, como pode falar sobre tratamento na terceira pessoa? Nhengatu é o dialeto do caipira paulista. A mistura do português arcaico dos colonizadores com o tupi-guarani. Houve uma metamorfose no dialeto, porque a língua é viva e está em constante transformação. Até meados do século XIX, não se falava em São Paulo outro idioma que não fosse a língua dos índios. Acho que até já escrevi nesta coluna que o bandeirante Fernão Dias ficou tanto tempo no sertão, à ponto de esquecer a língua portuguesa. Afinal naquele grupo havia apenas um português fora ele. O resto era índio e mameluco. Gaucho fala na segunda pessoa pela influência castelhana. É o portunhol legítimo, com muita palavra guarani.
... “Rápidas” quer ser literatura caipira, nascida nos vales de Santa Cruz dos Matos. Ela quer ir para as academias de letras como tributo à uma língua à beira da morte. Perdemos o conceito de gramática e assumimos criminosamente o dialeto das paginas de relacionamento social da internet, do Orkut ou do Face book, verdadeiras vísceras expostas do avesso, do avesso de uma adolescência que fugiu da escola. Irresponsáveis analfabetos por opção. Para eles, o amanhã não existe. O pior de tudo é ver essa moçada tomando por base as letras das músicas sertanejas, desprovidas de qualquer coisa coerente com a língua portuguesa, demonstrando os autores total desconhecimento de rima, métrica, linha melódica e concordância. É um zum-zum-zum musicado.
...Até a semana.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
VERÃO VERMELHO- Orlando Pinheiro
Ponte do Rio do Turvo - Foto de Nazaré Domingues
O verão para mim tem essência das matas do entorno do Guarupu, do murmú do rio do Turvo, das pescarias com meu pai. Ainda sinto no lombo a água tépida desses rios onde me batizei como menino. Ouço na saudade a algazarra dos companheiros nus, nadando escondidos dos pais. Havia também o ribeirão do Azarias e a lagoa da Ilidia, muito além da última casa da Vila Nova. Eram nossas piscinas naturais e os nossos clubes de campo, meio prive, meio nudista. A preocupação maior era torcer o calção feito de saco alvejado, para as mãos não perceberem a fuga na liberdade dos rios. Verão de minha adolescência já tinha o açude do Alcindo Terra, como já escrevi diversas vezes. Como flores adornando o imenso bosque, enfeitado de pontes e caminhos sinuosos como num labirinto.E estavam lá a Márcia, a Aída, a Maria Tereza...Na vitrolinha à pilha, Newton César representava com sua voz, a nossa mais pura declaração de amor: “Receba as flores que lhe dou/e em cada flor um beijo meu...”
As chuvas dessa estação levavam de roldão os pedregulhos das ruas descalças e transbordavam a cabeceira dos rios.Muitas vezes vi o ribeirão do matadouro ultrapassar o vau da ponte da estrada de Santa Cruz, quando o nível das águas atingia as cercanias do sítio do Miguel Dias. À noite, a sinfonia dos sapos orquestravam um coro em uníssono: a melodia da chuva. No outro dia, o sol despertava rubro, enxugando num instante o rastro deixado pelo temporal. Era momento de buscar borras de piçarra, arredondá-la em minúsculas esferas, o “pelote” pro estilingue. Era tempo também de corte brusco de energia por causa das chuvas que transbordava as represas do Turvinho. Muitas vezes a sala de projeção do cine São Miguel estava lotada, e de repente, o breu total transformando tudo em caos. Quando a energia acabava, não havia previsão de volta. Daí, em todas as casas, os lampiões de querosene tiveram importância meritória até a chegada dos modernos lampiões à gás. Não se usava vela como lume do ambiente, pois estas eram instrumentos de fé, benzidas em Iguape ou Aparecida do Norte. Nos tempos de verão as velas só se acendiam para espantar chuva brava e ventania.
Eu particularmente, não gosto muito do verão. O ar abafado, o sol vermelho pendurado na cortina do céu o dinterin. Depois, o suor abundante incomoda em qualquer posição com a roupa grudando na pele.Isso tudo faz do verão uma estação não muito agradável para mim, ainda se somar as nuvens de pernilongos e muriçocas. Por outro lado, a imagem da meninice traz na retina o ruído do acasalamento das içás, a algazarra das crianças, capturando esses insetos, arrancando-lhe as asas e a bunda, para torrar feito um amendoim. Era um prato disputadíssimo para quem se alimentava pouco! Os bandos de “leluias” revoluteando ao calor das lâmpadas dos postes, ou entrando nas casas, no ouvido e no nariz da gente. O outro dia sempre estalava vermelho em brasa, sob o canto ardido de uma cigarra estridente, rachando-se ao sol numa melodia de uma nota só.
O verão para mim sempre teve uma medida. Durava do Natal ao Carnaval. O resto era sempre primavera, mesmo que o rigor do frio de junho trouxesse consigo a geada matadeira e a cerração, como um véu branco e imenso se desprendendo numa cortina da torre da igreja. Fevereiro era tempo também de rever os amigos na volta às aulas, de esperar pelos três dias de feriado para tentar sair do bloco da solidão, principalmente eu, que sempre fui um Pierrot Apaixonado. Mas nos carnavais da minha vida por causa de mil Colombinas, sempre acabei chorando...
O sol quente me traz a lembrança o canto rouco e sufocado das rolinhas na estrada sinuoso do Retiro, onde minha irmã principiou a lecionar. Refletem na retina, imagens de rios e areões sem fim, lá no sítio do Olímpio Pinheiro, onde o piau era abundante. Roças de milho verdejando na extensão onde a vista alcançava e o ritmo monótono das espigas no ralo para o feitio da pamonha...Lembranças ou miragens do calor que nesta terra onde eu moro ultrapassa os 35 graus? Dá vontade de se refrescar chupando os picolés do Bar Central, feito no capricho pelo Joaquim Ferreira que nem sonhava ser gerente de banco. E as limonadas que a gente levava na geladeira do vizinho para congelar. Os refrigerantes “caçulinha” que a garotada de hoje nem sequer conhece.
Era um tempo que a gente morria de vontade tomar banho de chuveiro, uma coisa rara nas casas de antigamente. Fora o “se lavar” nos tanques de bater roupa, a gente se escaldava nos dias de festas e domingos nos baciões de zinco, na maioria das vezes rebitados com um fundo de pau. Era dia de usar sabonete “Lever” ou “Ross”, material de finíssima qualidade em comparação ao sabão de cinza do dia à dia. Quando muito, de segunda a sábado, passava-se um pano úmido no lombo para evitar a friagem de uma exposição prolongada sob a água e ao relento. Na maioria das vezes, era obrigatório lavar os pés pra dormir. Tomar banho na quaresma, nem pensar! Era pecado.
Assim passou o verão do meu tempo de menino. Sem piscina, sem clubes sociais para desfrutar as delicias de uma cadeira de plástico, sob um toldo de lona colorida, tomando água de côco e cervejinha gelada. Éramos meio selvagens nas explorações dos veios de água para aplacar o calor. Não tinha o requinte das chácaras modernas de recreio, mas havia a exuberância da natureza em volta, o canto nostálgico do sabiá coleira que só canta no verão e vôo simétrico dos quero-queros, escrevendo no céu uma crônica de saudade.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
ALMANAQUE DA SAUDADE - Orlando Pinheiro
Você é um sãomiquelense que está envelhecendo quando lembra do Coelhinho, contador da Prefeitura, que nada tem a ver com os “coelhos” dos irmãos Silva. Ou então recebia vales, ao invés de salário da municipalidade, durante a construção do ginásio. Esses vales acabavam ficando no armazém do prefeito, onde você, como funcionário municipal, comprava por mês, sob os olhos fiscalizadores do Totó Fogaça. Namorou nas barquinhas dos parques de diversões que se instalavam atrás do Gomide e ao som de “Tango Triste” executado pelo DJ e speaker Guezo Pinto. Comprou biscoito salgadinho e doce pra oferecer à ela. Ouviu o Ari Camargo cantar: “Mamãe, mamãe, mamãe, tu és a razão dos meus dias...”, todos os segundo domingos do mês de maio e achava que a dona Nina, Adelina Prandini Ribas, tinha tudo para ser a prefeita do município. Comprava lenha para do Zeca Marcelo e do Leonides, pai do Canhoteiro, sonhando com o dia em que pudesse pelo menos comprar um fogão a carvão. Lembra ainda dos burros da prefeitura, digo, das carroças da municipalidade, puxadas pelos muares, pilotadas pelo Miguel Ribeiro, de uma mão só, pelo Salvador Caetano e pelo Joaquim de Oliveira.
Você é um sãomiquelense quase em fase de extinção se usou caneta “Parker 51” para assinar o livro durante o seu casamento no cartório, e depois, nem sequer se importou se a caneta era “Bic”ou outra marca, para assinar no mesmo livro, vinte anos depois, o divórcio. Foi em todas as quiçaças em de redor, pra só bem depois, virar irmão de fé do João Tristão e do Paulo Teobaldo.Comprou“porva”no Zé Ibrahim, vasilicão e pomada Moreira no Acácio, na época, Silvério e Vassão.Viu a coroação da Tereza Letícia como Rainha dos Estudantes, freqüentou bailes no Ipiranga e viu a Yolanda Araújo receber a faixa de “Embaixatriz do Turismo”.
Agora, velho mesmo, se foi macaco de auditório no Grêmio Estudantil, dando gritinhos para o João de Góes e Aparício Dias ao cantarem “Yellow Submarine” ao som do conjunto Music Boys. Ou então, se foi “peixinho” do professor Arthur, a ponto de conhecer o seu sítio cinematográfico em Angatuba, ou sabia de cor a colocação dos livros de gramáticas no minúsculo quarto do velho, no hotel Ipiranga. Usava brilhantina “Dirce”, roupas no estilo James Dean. Pilotava uma “Monark” da hora, toda embandeirada. Foi inúmeras vezes à festa de Iguape com dor de dente, sem poder sair para ir à praia com um lenço emoldurando o rosto inchado. Só mostrava o “cachaço” dolorido na boca, ao Luiz Careca ou João Camargo, os reis do boticão. Aquele doutor dentista da lambreta famosa era muito esnobe aos olhos do povinho. Só atendia rico, cobrava um preço alto e vinha com aquela história de obturação.
É velho se emprestou dinheiro a juro do Primo Nalesso, comprou cachimbo no Antonio Doce, fumo de corda no armazém do “Naile”, onde o Laurindo, caixeiro de confiança do velho sírio-libanez, conhecia a qualidade do tabaco cheirando rolo por rolo. Pagou o Primo Nalesso com dinheiro emprestado do Virgílio Rufino, que se enriqueceu vendendo fumo. Daí, por não poder pagar o velho financista, pagou para consultar a Nhá Maria Manca, certo de que ela tirava o “atrapaio” nos negócios. Então levou fumo de verdade!
Você é um sãomiquelense envelhecendo, quando olha no espelho e lembra que no seu tempo de moço os espelhos tinham a moldura vermelha. Espelho maior, só mesmo na barbearia do Paulino Brizola, onde cortava no estilo meia cabeleira ou militar. Ou se caprichava na goma da camisa comprada na Casa Jabur. Girava na praça antes da sessão do cinema ou devorava os pasteis do Jorge Hakim, isso quando não usava o “reservado” da pastelaria para conversar de “pé de ouvido” com ela, num lugar mais tranquilo. Lembra-se de ter jogado sinuca no Bar Central, pagou o IAPTEC e não se aposentou até hoje. Dançou ao som de “Starnight”, “Toninho de Lins” e os “Filtsons” de Tatuí. Comprou pão na padaria do Chico Rosa e do Ninomya. Ainda guarda com carinho os bonecos do Pelé e da Emília, brindes das Cestas de Natal Amaral.Conseguiu comprar a prestação aquele rádio “Semp” com quatro faixa de ondas do jovem Jorginho, o árabe mais novo da rua Miguel Terra. Comprou com caderneta no Theophilo Moyses e no Tomas de Souza, no tempo em que trabalhava na fabrica de esteirinha.
É nessas horas que você percebe ser um sãomiquelense puro-sangue. Demonstração dessa característica psicológica é não conseguir entrar na padaria ou num bar sem pedir um “pingado”, gosta de oferecer música no rádio ou em alto-falante de festa junina. Mas o “hobby” do sãomiquelense puro-sangue é alisar o fusquinha no final de semana, como se fosse o cachorrinho de estimação. Não consegue fazer pegar o carro à “arco” no mês de junho; briga c’a veia na hora do almoço por não ter mistura. Usa expressão exclusiva da terra como: “Ai fio do céu”, “Chééé”. Sãomiquelense de cepa tem de ter pescado pelo menos quatro “piaus” no Rio do Turvo, atravessado a nado uma das represas do Turvinho. Tem que aprender a ir sozinho nos inferninhos de Itapetininga e depois, com cara de santo dizer que foi ao médico.
Você é um sãomiquelense que está envelhecendo quando se lembra que para ir ao cinema com uma garota, tinha de levar a mãe dela, as tias, as vizinhas, as primas e os dois irmãozinhos. Não podia sequer tocar nos dedos da donzela pretendida. Não podia muito menos sequer pensar em tocar violão, pois demonstrava à família dela, suas tendências boemias e pouca afeição pelo trabalho. Nesse tempo não havia separação! Casamento era para sempre. Ser desquitado não era condição civil, mas um pecado grave para o homem e para a mulher. Mas você é um sãomiquelense velho e feliz se saboreou as geléias da Bela Vista e do Beija Flor, comprada no velho Nicolau Russo, na frente do cinema, ou saboreou o algodão doce do Juquinha Rafael, feitos na hora.
Você tem história guardada no fundo do baú pra jamais contar, se namorou no jardim ao lado do clube, onde hoje é o Posto de Saúde e a Câmara Municipal. Gostava de conversar com as moças de plantão no muro da cooperativa. Comprou retalho na loja do Ademir Monteiro e calça “Lee” ou “Lewis” da Brígida do Totó, importadas diretamente de Itapetininga, que não desbotavam nem com água de lavadeira. Comprou almôndegas do Belarmino Jacó, lá atrás do bar do Joaquim Góte ou se lembra do Zé Pedro Preto, aquele congregado mariano que fez por correspondência um curso preparatório para tenente, e exigia todo mundo chamá-lo pela pseudopatente.Agora, você é velho mesmo, se recorda da Chica Barbosa ainda menininha.
Pra ficar mais “light”, o nosso “Almanaque” que tal lembrarmos, nestes tempos de violência de “A donzela de Orleans”, “A Rainha do Rádio”, “Os velhos olhos azuis”, “Capitão Marvel”, “Carlos Zéfiro”, “espinhela caída”, “gripe espanhola”, “pai da aviação”, “Leão de Judá”, “A namoradinha do Brasil”, “Almanaque Renascim”, “Almanaque Catarinense”, “Jeca Tatuzinho e o Biotônico Fontoura”, “O Sheik de Agadir”, “O Direito de Nascer”, “O Diamante Negro”, “O Caboclinho Querido”, “O Presidente Bossa Nova”, “O Rei da Chanchada”, “O Advogado do Diabo”, “O Cantor das Multidões”, “O Águia de Haia”, “O Rei do Baião”, “A Pequena Notável”, “O Sombra”, “Jerônimo, o Herói do Sertão”, “Bronco Billy”, “Águia Negra”, “Búfalo Bill”, “O Vigilante Rodoviário”, “Durango Kid”, “Flecha Ligeira”, “Cavaleiro Negro,“Zorro” e “Dom Chicote”?
Gostou? A felicidade não tem idade.
Você é um sãomiquelense quase em fase de extinção se usou caneta “Parker 51” para assinar o livro durante o seu casamento no cartório, e depois, nem sequer se importou se a caneta era “Bic”ou outra marca, para assinar no mesmo livro, vinte anos depois, o divórcio. Foi em todas as quiçaças em de redor, pra só bem depois, virar irmão de fé do João Tristão e do Paulo Teobaldo.Comprou“porva”no Zé Ibrahim, vasilicão e pomada Moreira no Acácio, na época, Silvério e Vassão.Viu a coroação da Tereza Letícia como Rainha dos Estudantes, freqüentou bailes no Ipiranga e viu a Yolanda Araújo receber a faixa de “Embaixatriz do Turismo”.
Agora, velho mesmo, se foi macaco de auditório no Grêmio Estudantil, dando gritinhos para o João de Góes e Aparício Dias ao cantarem “Yellow Submarine” ao som do conjunto Music Boys. Ou então, se foi “peixinho” do professor Arthur, a ponto de conhecer o seu sítio cinematográfico em Angatuba, ou sabia de cor a colocação dos livros de gramáticas no minúsculo quarto do velho, no hotel Ipiranga. Usava brilhantina “Dirce”, roupas no estilo James Dean. Pilotava uma “Monark” da hora, toda embandeirada. Foi inúmeras vezes à festa de Iguape com dor de dente, sem poder sair para ir à praia com um lenço emoldurando o rosto inchado. Só mostrava o “cachaço” dolorido na boca, ao Luiz Careca ou João Camargo, os reis do boticão. Aquele doutor dentista da lambreta famosa era muito esnobe aos olhos do povinho. Só atendia rico, cobrava um preço alto e vinha com aquela história de obturação.
É velho se emprestou dinheiro a juro do Primo Nalesso, comprou cachimbo no Antonio Doce, fumo de corda no armazém do “Naile”, onde o Laurindo, caixeiro de confiança do velho sírio-libanez, conhecia a qualidade do tabaco cheirando rolo por rolo. Pagou o Primo Nalesso com dinheiro emprestado do Virgílio Rufino, que se enriqueceu vendendo fumo. Daí, por não poder pagar o velho financista, pagou para consultar a Nhá Maria Manca, certo de que ela tirava o “atrapaio” nos negócios. Então levou fumo de verdade!
Você é um sãomiquelense envelhecendo, quando olha no espelho e lembra que no seu tempo de moço os espelhos tinham a moldura vermelha. Espelho maior, só mesmo na barbearia do Paulino Brizola, onde cortava no estilo meia cabeleira ou militar. Ou se caprichava na goma da camisa comprada na Casa Jabur. Girava na praça antes da sessão do cinema ou devorava os pasteis do Jorge Hakim, isso quando não usava o “reservado” da pastelaria para conversar de “pé de ouvido” com ela, num lugar mais tranquilo. Lembra-se de ter jogado sinuca no Bar Central, pagou o IAPTEC e não se aposentou até hoje. Dançou ao som de “Starnight”, “Toninho de Lins” e os “Filtsons” de Tatuí. Comprou pão na padaria do Chico Rosa e do Ninomya. Ainda guarda com carinho os bonecos do Pelé e da Emília, brindes das Cestas de Natal Amaral.Conseguiu comprar a prestação aquele rádio “Semp” com quatro faixa de ondas do jovem Jorginho, o árabe mais novo da rua Miguel Terra. Comprou com caderneta no Theophilo Moyses e no Tomas de Souza, no tempo em que trabalhava na fabrica de esteirinha.
É nessas horas que você percebe ser um sãomiquelense puro-sangue. Demonstração dessa característica psicológica é não conseguir entrar na padaria ou num bar sem pedir um “pingado”, gosta de oferecer música no rádio ou em alto-falante de festa junina. Mas o “hobby” do sãomiquelense puro-sangue é alisar o fusquinha no final de semana, como se fosse o cachorrinho de estimação. Não consegue fazer pegar o carro à “arco” no mês de junho; briga c’a veia na hora do almoço por não ter mistura. Usa expressão exclusiva da terra como: “Ai fio do céu”, “Chééé”. Sãomiquelense de cepa tem de ter pescado pelo menos quatro “piaus” no Rio do Turvo, atravessado a nado uma das represas do Turvinho. Tem que aprender a ir sozinho nos inferninhos de Itapetininga e depois, com cara de santo dizer que foi ao médico.
Você é um sãomiquelense que está envelhecendo quando se lembra que para ir ao cinema com uma garota, tinha de levar a mãe dela, as tias, as vizinhas, as primas e os dois irmãozinhos. Não podia sequer tocar nos dedos da donzela pretendida. Não podia muito menos sequer pensar em tocar violão, pois demonstrava à família dela, suas tendências boemias e pouca afeição pelo trabalho. Nesse tempo não havia separação! Casamento era para sempre. Ser desquitado não era condição civil, mas um pecado grave para o homem e para a mulher. Mas você é um sãomiquelense velho e feliz se saboreou as geléias da Bela Vista e do Beija Flor, comprada no velho Nicolau Russo, na frente do cinema, ou saboreou o algodão doce do Juquinha Rafael, feitos na hora.
Você tem história guardada no fundo do baú pra jamais contar, se namorou no jardim ao lado do clube, onde hoje é o Posto de Saúde e a Câmara Municipal. Gostava de conversar com as moças de plantão no muro da cooperativa. Comprou retalho na loja do Ademir Monteiro e calça “Lee” ou “Lewis” da Brígida do Totó, importadas diretamente de Itapetininga, que não desbotavam nem com água de lavadeira. Comprou almôndegas do Belarmino Jacó, lá atrás do bar do Joaquim Góte ou se lembra do Zé Pedro Preto, aquele congregado mariano que fez por correspondência um curso preparatório para tenente, e exigia todo mundo chamá-lo pela pseudopatente.Agora, você é velho mesmo, se recorda da Chica Barbosa ainda menininha.
Pra ficar mais “light”, o nosso “Almanaque” que tal lembrarmos, nestes tempos de violência de “A donzela de Orleans”, “A Rainha do Rádio”, “Os velhos olhos azuis”, “Capitão Marvel”, “Carlos Zéfiro”, “espinhela caída”, “gripe espanhola”, “pai da aviação”, “Leão de Judá”, “A namoradinha do Brasil”, “Almanaque Renascim”, “Almanaque Catarinense”, “Jeca Tatuzinho e o Biotônico Fontoura”, “O Sheik de Agadir”, “O Direito de Nascer”, “O Diamante Negro”, “O Caboclinho Querido”, “O Presidente Bossa Nova”, “O Rei da Chanchada”, “O Advogado do Diabo”, “O Cantor das Multidões”, “O Águia de Haia”, “O Rei do Baião”, “A Pequena Notável”, “O Sombra”, “Jerônimo, o Herói do Sertão”, “Bronco Billy”, “Águia Negra”, “Búfalo Bill”, “O Vigilante Rodoviário”, “Durango Kid”, “Flecha Ligeira”, “Cavaleiro Negro,“Zorro” e “Dom Chicote”?
Gostou? A felicidade não tem idade.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
SAUDADE EM CINEMASCOPE - Orlando Pinheiro
Foto de Jairo .Costa Jr
Num dia destes bateu uma saudade das quermesses de antigamente, tanto que ouvi nitidamente o barulho da roleta e o pregão do velho Chico Pipoqueiro, anunciando o número sorteado. Era tradição, no meu tempo de menino, comer pastel na barraquinha da igreja todos os domingos à noite. Eu era deste tamanhinho, quando vi pela primeira vez, do cangote do meu pai, a Irene cantando. Depois vieram o Ivan e sua irmã Glorinha...
O cine São Miguel era responsável pela trilha sonora dos casais que rodopiavam na praça. O som feito pelo Agapito ecoava nos quatro cantos da cidade e quando vibravam os acordes de “El Novillero” era o último sinal para o pessoal entrar para começar a projeção. Abriam-se as cortinas do palco e John Wayne aparecia em preto e branco numa tela vistavision. Não sabe o que é vistavision? E panavision? Eram raros os filmes em Eastmancolor. No fim da história você vai saber o que é.
Quando eu disse que antes de iniciar a projeção abriam-se as cortinas é porque o cinema era também teatro. Uma tela minúscula ficava no fundo do palco. Alias, esse palco está intacto para quem quiser ver. Depois do cinema do Antenor Moreira e Cassiano Vieira no tempo do cinema mudo, a obra de Fuad Abrão foi algo grandioso, tanto que foi inaugurada pelo Ademar de Barros, que na época era Governador do estado.
O cinemascope quando chegou, teve de ser adaptado através de lente própria e construíram uma tela imensa de fibra, que ia de lado a lado da sala de projeção. O cinemascope era para ser avô do cinerama, projeção em tela tridimensional que cria a ilusão no espectador, de estar dentro da cena. O primeiro filme exibido na tela grande do Cine Teatro São Miguel foi “A última carroça”. Daí então, pudemos ver com mais clareza a feição do John Wayne e a cor da carroça. Hoje quase não existe mais filme em cinemascope. Hollywood padronizou as películas para uma só bitola de projetor. E nós, sãomiquelenses saudosistas estamos bitolados, sem cinema, sem teatro. E cá entre nós, os filmes de hoje são feitos para cinema mesmo! Não tem graça nenhuma assistir uma aventura produzida pelo Spilberg num vídeo ou DVD. A magnitude dos efeitos especiais é para se ver em cinema mesmo.
O cinema de São Miguel tinha algumas poltronas em local de boa visibilidade, destinada aos ingressos de favor. Ingresso de favor, como dizia o Roque Mariano, eram as entradas grátis, e por isso, lá estava escrito nas cadeiras preferenciais: delegado de polícia e sra; prefeito municipal e sra; comissário de menor e sra. Durante o tempo que “cinemei”, dificilmente vi essas poltronas ocupadas pelas autoridades. Quando escuto aquela música “Splish-splash” que foi sucesso nos anos sessenta, na voz do Roberto Carlos tenho a impressão de ter ouvido som semelhante no escurinho da sala de projeção. A gente, com o coração adolescente acelerado começava tocando de leve no dedo mínimo da menina. Já foi uma luta inigualável fazer com que ela permitisse sentar junto. Do dedo mínimo, com muito jeito, a gente tentava ver até onde ia o máximo...Mas não tinha jeito! Quando os dedos de veludos, feito polvos trêmulos, sombreavam a região frontal protuberante, não dava outra. Era o splish e splash! Então vinha o Cantinflas, com aquela maldita lanterninha, e se a gente insistisse um pouco mais, o Roque Mariano, sem piedade e nem dó acendia as luzes e anunciava no alto falante para todos os espectadores: ”Senhor fulano de tal, queira se retirar da sala de projeção por estar perturbando o desenrolar da sessão...”
Inesquecível mesmo na história do cinema, foi uma exibição pela primeira vez na cidade de um filme em terceira dimensão. Era uma aventura para dar mais sensação à projeção.Na entrada foram distribuídos óculos especiais para obter o efeito visual. Cada um que entrava já colocava o apetrecho. Olhando do balcão via-se todo mundo com uma máscara de plástico branco afivelada no rosto. A sessão normalmente começava com um jornal, depois a exibição dos traillers da semana e por fim, após vinte minutos, o filme principal. E o povo direto com os óculos, só que ninguém estava enxergando nada com aquelas lentes específicas para o filme tridimensional.
Muitos não sabem desses termos, vistavision, panavision e supervision. Muito menos eastmancolor. Tecnicolor todo mundo sabe...Assim como sabemos quanto brilhou no palco do cinema o pessoal que cantava na barraquinha, todos os domingos. Naquele palco, gente famosa como Rosa Maria, intérprete de “Califórnia Dream”, Zapatta, autor de “Canário do Reino”, imortalizada na voz de Tim Maya, também ali deixou sua marca. O harpista Luiz Bordón e os “Titulares do Rítmo”, seis vocalistas cegos, semelhantes ao “The Platters”, isso sem mencionar o primeiro filme brasileiro em cinemascope e tecnicolor “A Morte Comanda o Cangaço” exibido em duas sessões com casa lotada. Dizer que as fitas do Mazzaropi estouravam a bilheteria é chover no molhado, pois historicamente foi o artista brasileiro mais bem sucedido. Vale a pena lembrar a série “Sissi”, “Sissi, a imperatriz” e “Sissi e seu destino”, com Romy Schennaider. Essa atriz americana era uma espécie de Sandy internacional, para os adolescentes dos anos cinqüenta. Na exibição da primeira parte da série, a fila de garotos começava na porta de bilheteria e terminava lá no casarão da Sul Paulista. Entretanto, antes de soar “El Novillero”, acabou a energia elétrica para não mais voltar.Foi o maior desmonte de jardim da história de São Miguel! Derrubaram banco, sujaram no coreto...É uma história, que segundo alguns, não é para ser contada.
O cinema é idílico na visão do meu amigo Miguel França. E porque não dizer, afrodisíaco, nos dias de hoje, bastando a participação de uma Katherina Zeta-Jones, Sharon Stone, ou mesmo a sul africana, Charlise Theron. Naquele tempo, quando Brigitte Bardot estrelou “E Deus fez a Mulher”, onde pouca coisa aparecia em relação ao tudo que se mostra hoje, o filme foi rigorosamente proibido até dezoito anos. Era filme de escândalo! O pior deles, “Paris à Noite”, no qual atrizes desnudas dançavam o “can-can”. Filha de Maria não ia ao cinema... Iam as filhas da dona Bernardina, da dona Gertrudes, mas filha de Maria nunca, pelo menos com as luzes acesas.
Para matar a curiosidade, “panavision” era o filme de 16 milímetros, de visão panorâmica, pouco maior que o “vistavision” projetado no tamanho natural da lente original, na qual foi rodado, à saber as fitas de Charlie Chaplin, no tempo do cinema mudo.O “supervision” ocupava o tamanho da tela inteira do cinema do tempo do Fuad Abrão, aquela, em que as cortinas se abriam. Hoje são raros os filmes em cinemascope que ocupava a tela grande, pois segundo os entendidos, a projeção perdia em qualidade de cores. Nesse padrão eram produzidos os filmes épicos e bíblicos. Os filmes europeus traziam como marca registrada de suas películas o “eastmancolor”. Não há uma tradução específica para tal que poderia ser até “colorido oriental”. O termo tecnicolor além de especificar um padrão de qualidade, as fotografias eram programadas com certas técnicas de efeitos e matizes.
Quando a sessão terminava, a gente saia saboreando um beijo com chicletes de hortelã da bomboniére do Roque, onde os chocolates de luxos eram muito caros. Então, para terminar a noite e fechar as cortinas do domingo a gente passava pela quermesse da barraquinha, oferecendo para ela um doce de cidra, tal qual o doce-amargo desta saudade.Os domingos daquele tempo não tinham o prefixo do programa do Faustão e nem o sufixo do Fantástico. O nosso domingo tinha o som de “El Novillero” e as músicas da quermesse.
Vivos, na galeria da saudade, feito um filme vão passando as fisionomias de: Carmelita Terra; Roque Mariano Ribeiro; Cantinflas;Agapito; Munira Ozi Abrão; Fuad Abrão; José Antonio de Souza (Preto); Antídio Alves, Pedrinho Ortiz; Ademar Lambreta; Ivan de Góes; João de Góes; João Francisco de Jesus; Mário Leite e tantos outros que fizeram do Cine Teatro São Miguel, o nosso cinema paradiso.
Num dia destes bateu uma saudade das quermesses de antigamente, tanto que ouvi nitidamente o barulho da roleta e o pregão do velho Chico Pipoqueiro, anunciando o número sorteado. Era tradição, no meu tempo de menino, comer pastel na barraquinha da igreja todos os domingos à noite. Eu era deste tamanhinho, quando vi pela primeira vez, do cangote do meu pai, a Irene cantando. Depois vieram o Ivan e sua irmã Glorinha...
O cine São Miguel era responsável pela trilha sonora dos casais que rodopiavam na praça. O som feito pelo Agapito ecoava nos quatro cantos da cidade e quando vibravam os acordes de “El Novillero” era o último sinal para o pessoal entrar para começar a projeção. Abriam-se as cortinas do palco e John Wayne aparecia em preto e branco numa tela vistavision. Não sabe o que é vistavision? E panavision? Eram raros os filmes em Eastmancolor. No fim da história você vai saber o que é.
Quando eu disse que antes de iniciar a projeção abriam-se as cortinas é porque o cinema era também teatro. Uma tela minúscula ficava no fundo do palco. Alias, esse palco está intacto para quem quiser ver. Depois do cinema do Antenor Moreira e Cassiano Vieira no tempo do cinema mudo, a obra de Fuad Abrão foi algo grandioso, tanto que foi inaugurada pelo Ademar de Barros, que na época era Governador do estado.
O cinemascope quando chegou, teve de ser adaptado através de lente própria e construíram uma tela imensa de fibra, que ia de lado a lado da sala de projeção. O cinemascope era para ser avô do cinerama, projeção em tela tridimensional que cria a ilusão no espectador, de estar dentro da cena. O primeiro filme exibido na tela grande do Cine Teatro São Miguel foi “A última carroça”. Daí então, pudemos ver com mais clareza a feição do John Wayne e a cor da carroça. Hoje quase não existe mais filme em cinemascope. Hollywood padronizou as películas para uma só bitola de projetor. E nós, sãomiquelenses saudosistas estamos bitolados, sem cinema, sem teatro. E cá entre nós, os filmes de hoje são feitos para cinema mesmo! Não tem graça nenhuma assistir uma aventura produzida pelo Spilberg num vídeo ou DVD. A magnitude dos efeitos especiais é para se ver em cinema mesmo.
O cinema de São Miguel tinha algumas poltronas em local de boa visibilidade, destinada aos ingressos de favor. Ingresso de favor, como dizia o Roque Mariano, eram as entradas grátis, e por isso, lá estava escrito nas cadeiras preferenciais: delegado de polícia e sra; prefeito municipal e sra; comissário de menor e sra. Durante o tempo que “cinemei”, dificilmente vi essas poltronas ocupadas pelas autoridades. Quando escuto aquela música “Splish-splash” que foi sucesso nos anos sessenta, na voz do Roberto Carlos tenho a impressão de ter ouvido som semelhante no escurinho da sala de projeção. A gente, com o coração adolescente acelerado começava tocando de leve no dedo mínimo da menina. Já foi uma luta inigualável fazer com que ela permitisse sentar junto. Do dedo mínimo, com muito jeito, a gente tentava ver até onde ia o máximo...Mas não tinha jeito! Quando os dedos de veludos, feito polvos trêmulos, sombreavam a região frontal protuberante, não dava outra. Era o splish e splash! Então vinha o Cantinflas, com aquela maldita lanterninha, e se a gente insistisse um pouco mais, o Roque Mariano, sem piedade e nem dó acendia as luzes e anunciava no alto falante para todos os espectadores: ”Senhor fulano de tal, queira se retirar da sala de projeção por estar perturbando o desenrolar da sessão...”
Inesquecível mesmo na história do cinema, foi uma exibição pela primeira vez na cidade de um filme em terceira dimensão. Era uma aventura para dar mais sensação à projeção.Na entrada foram distribuídos óculos especiais para obter o efeito visual. Cada um que entrava já colocava o apetrecho. Olhando do balcão via-se todo mundo com uma máscara de plástico branco afivelada no rosto. A sessão normalmente começava com um jornal, depois a exibição dos traillers da semana e por fim, após vinte minutos, o filme principal. E o povo direto com os óculos, só que ninguém estava enxergando nada com aquelas lentes específicas para o filme tridimensional.
Muitos não sabem desses termos, vistavision, panavision e supervision. Muito menos eastmancolor. Tecnicolor todo mundo sabe...Assim como sabemos quanto brilhou no palco do cinema o pessoal que cantava na barraquinha, todos os domingos. Naquele palco, gente famosa como Rosa Maria, intérprete de “Califórnia Dream”, Zapatta, autor de “Canário do Reino”, imortalizada na voz de Tim Maya, também ali deixou sua marca. O harpista Luiz Bordón e os “Titulares do Rítmo”, seis vocalistas cegos, semelhantes ao “The Platters”, isso sem mencionar o primeiro filme brasileiro em cinemascope e tecnicolor “A Morte Comanda o Cangaço” exibido em duas sessões com casa lotada. Dizer que as fitas do Mazzaropi estouravam a bilheteria é chover no molhado, pois historicamente foi o artista brasileiro mais bem sucedido. Vale a pena lembrar a série “Sissi”, “Sissi, a imperatriz” e “Sissi e seu destino”, com Romy Schennaider. Essa atriz americana era uma espécie de Sandy internacional, para os adolescentes dos anos cinqüenta. Na exibição da primeira parte da série, a fila de garotos começava na porta de bilheteria e terminava lá no casarão da Sul Paulista. Entretanto, antes de soar “El Novillero”, acabou a energia elétrica para não mais voltar.Foi o maior desmonte de jardim da história de São Miguel! Derrubaram banco, sujaram no coreto...É uma história, que segundo alguns, não é para ser contada.
O cinema é idílico na visão do meu amigo Miguel França. E porque não dizer, afrodisíaco, nos dias de hoje, bastando a participação de uma Katherina Zeta-Jones, Sharon Stone, ou mesmo a sul africana, Charlise Theron. Naquele tempo, quando Brigitte Bardot estrelou “E Deus fez a Mulher”, onde pouca coisa aparecia em relação ao tudo que se mostra hoje, o filme foi rigorosamente proibido até dezoito anos. Era filme de escândalo! O pior deles, “Paris à Noite”, no qual atrizes desnudas dançavam o “can-can”. Filha de Maria não ia ao cinema... Iam as filhas da dona Bernardina, da dona Gertrudes, mas filha de Maria nunca, pelo menos com as luzes acesas.
Para matar a curiosidade, “panavision” era o filme de 16 milímetros, de visão panorâmica, pouco maior que o “vistavision” projetado no tamanho natural da lente original, na qual foi rodado, à saber as fitas de Charlie Chaplin, no tempo do cinema mudo.O “supervision” ocupava o tamanho da tela inteira do cinema do tempo do Fuad Abrão, aquela, em que as cortinas se abriam. Hoje são raros os filmes em cinemascope que ocupava a tela grande, pois segundo os entendidos, a projeção perdia em qualidade de cores. Nesse padrão eram produzidos os filmes épicos e bíblicos. Os filmes europeus traziam como marca registrada de suas películas o “eastmancolor”. Não há uma tradução específica para tal que poderia ser até “colorido oriental”. O termo tecnicolor além de especificar um padrão de qualidade, as fotografias eram programadas com certas técnicas de efeitos e matizes.
Quando a sessão terminava, a gente saia saboreando um beijo com chicletes de hortelã da bomboniére do Roque, onde os chocolates de luxos eram muito caros. Então, para terminar a noite e fechar as cortinas do domingo a gente passava pela quermesse da barraquinha, oferecendo para ela um doce de cidra, tal qual o doce-amargo desta saudade.Os domingos daquele tempo não tinham o prefixo do programa do Faustão e nem o sufixo do Fantástico. O nosso domingo tinha o som de “El Novillero” e as músicas da quermesse.
Vivos, na galeria da saudade, feito um filme vão passando as fisionomias de: Carmelita Terra; Roque Mariano Ribeiro; Cantinflas;Agapito; Munira Ozi Abrão; Fuad Abrão; José Antonio de Souza (Preto); Antídio Alves, Pedrinho Ortiz; Ademar Lambreta; Ivan de Góes; João de Góes; João Francisco de Jesus; Mário Leite e tantos outros que fizeram do Cine Teatro São Miguel, o nosso cinema paradiso.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
VEM AÍ A FESTA DA CHUVA, DIGO, A FESTA DA UVA - Orlamdo Pinheiro
...Não posso mais viver aqui neste exílio permanente, misturando-me com as coisas de um mundo estranho, que nunca foi meu, cercado de seres alienígenas, na grande procissão de mutilados, catando no vão dos prédios os restos dos retalhos de uma vida mal vivida, atirada da janela do destino, transformando homens, mulheres e crianças num amontoado de sobreviventes pelo próprio instinto. Deixa-me descer deste ônibus lotado, onde o ser humano se espreme absorvendo o pouco de ar que ainda resta para respirar. Nesse burburinho, o grito dolorido da criança esbofeteada no rosto pela própria mãe, mal trajada de crente de fé pequenina e cabeloscompridos como uma burca. Ela é incapaz de abrir os olhos para mostrar que à cada bofetada, sulca no rosto do pequeno com profundas marcas de ódio do futuro e pela vida que jamais o receberá de braços abertos. Delinqüente já forjado no espancamento pela própria mãe madrasta. Nem o vestido longo até o tornozelo e o cabelo vasto, encarapinhado, feito pitote no alto da cabeça, lhe valem como diferencial de uma crença na santidade. Ela é má porque a vida e a cidade grande são más e lhe deixaram assim. Por isso, ela absorve mais a maldade do mundo, do que as palavras santas de todas as noites no seu ritual religioso.
...Não posso mais viver no corre-corre alucinado dessa gente sem nome e sem fisionomia, a praguejar maldições na fila do banco, quando tentam invadir a porta eletrônica que seleciona passagem de pobre. Sou levado por essa imensa massa de loucos atormentadps pelo dinheiro curto que não deu até o fim do mes. Na realidade, sou um pouco Napoleão, visionário consertador do mundo que a desigualdade detonou. Nesse volume de palavrões e esconjuros, fecho os olhos por um momento, tentando buscar em um canto da mente, onde estão os verdes parreirais da minha terra onde a chuva tamborilava uma música nas folhas. Lá eu podia correr livre, de encontro ao vento. Quero ir para bem distante dos prismas dos prédios, cujas sombras envolvem a miséria de mãos trêmulas estendidas na mendicância de um níquel reluzente, ainda que de pouco valor, que mal dá para comprar uma migalha de vida que lhe caiba na cova do dente, ou até mesmo uma pedra de crack para engnar a fome. Do outro lado, ciganas em profusões de roupas coloridas e sorriso dourado, oferecem ao passante um destino melhor por pouco trocado, expondo ali mesmo, as vísceras da sua própria sorte madrasta e mesquinha, que todos os dias estão ali, expostas, cumprindo o cotidiano mister de cercar a sorte na calçada, com promessa de transformação de vidas ou o resgate de amores naufragados na desilusão de uma vida cor de cinza.
...É cansativo correr atrás do dia, antes que ele termine, com tempo de levar para casa um sustento que seja, de uma fala mansa com tom de esperança, ocultando a histeria. Há sempre uma desgraça rondando em cada beco e a morte súbita por uma bala perdida, pode acontecer na próxima esquina, onde bandinho de meninos imberbes fuma maconha, sem se preocupar com quem passa. Nem mesmo o giroflex da viatura policial os intimida com suas luzes confusas na mente entorpecida. É o nada somado a coisa nenhuma, sem futuro algum. Apenas fuma... sem saber porque. Quem sabe para passar o tempo, o dia, a vida. Quando muito, por uma sorte cigana, um deles poderá contar mais meia década de vida se estiver em dia com o fornecedor.
...Quero voltar ouvir a chuva nos parreirais para não compartilhar do mesmo crime de omissão da catedral imponente, de portas fechadas aos bêbados e prostitutas da praça. Por aquela porta eles jamais entrarão no Reino do Céu. Há sempre uma viatura de plantão que só sai dali quando chegam noivas elegantes em carros de luxo. É o templo da feliz cidade! O pecado e a pobreza do mundo, que sempre andam de mãos dadas,jamais prevalecerão contra ela. Quando muito, ricocheteiam na madeira grossa do portal! Ah! Como eu queria a simplicidade das capelas de roça, onde passei a minha juventude e via fé simplescapaz de transportar bandeirolas coloridas para enfeitar a festa.
...Quero regressar para os meus parreirais. Sentir o beijo da brisa que acaricia meu cabelo. Quero reencontrar a minha felicidade esquecida e enterrada do lado esquerdo do Guarupu, onde nas tardes de calor pescava peixes dourados, sob o azul daquele céu de outono. Bandos de quero - quero riscavam os ares numa esquadrilha simétrica, em direção ao sol. Cansei de ser anônimo em plena multidão, sufocado pelo medo das pessoas e da sombra da noite, transformando sonhos em pesadelos. Quero dormir novamente no meu travesseiro de macela do campo, ouvindo o canto dolente de um sabiá. Preciso fugir do “rush” dos carros que parecem ter vida própria. Prefiro ouvir os chiados dos rodeiros de uma carroça, traçando rastros em paralelas profundas, tal qual o trilho que eu sigo na estrada da minha vida. Quero voltar para onde murmura o regato de águas na profusão de verde, escorregando sobre as pedras até a cachoeira da minha saudade, onde mergulhei nessa água benta e pura, a minha capacidade de sorrir e ser feliz.
...Até a semana
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
COISAS DA CARNE - Orlando Pinheiro
Quando a gente chega numa certa idade, passa a ser observador de coisas corriqueiras do dia a dia, mas que no fundo revelam o inconsciente coletivo. São valores de coisas que nos colocam num “status” de privilégio perante os demais. Por incrível que pareça, estou falando das minhas observações na longa fila de um açougue num supermercado. Você pode não acreditar, mas é justamente ali que se manifesta o poder econômico de cada um. Já cansei de dizer pro pessoal lá em casa que eu não gosto de ir ao açougue, pois me sinto acanhado diante daqueles que compram quilos e quilos de picanha para o churrasco com os amigos. Tem a elite do “filé mignon”. Essa também nos deixa embaraçado, principalmente, se na seqüência de atendimento, o próximo for a gente, que está ali só por causa de meio quilo de toicinho, pra fazer um virado de feijão com torresmo.
Numa dessas vezes, estava na minha frente, uma mulher de traços finos e trejeitos de madame a solicitar do açougueiro três quilos de filé de Merlusa. O açougueiro só tinha dois quilos de resto e ela chiou, pois não poderia completar a receita do seu cardápio. Depois de todo o lero-lero, chegou a minha vez. Já com cara de maus bofes o atendente me perguntou: “O que você quer?”. E meio envergonhado, falando quase baixinho disse: “meio quilo de lambari”. Também não tinha...
Na saída da fila do açougue, encontrei-me novamente com a madame do “filé de merlusa”, pegando na prateleira, um litro de vinho tinto sem qualidade alguma. Ao me ver, talvez ela tentou justificar sua posição social e me disse: “é para fazer sagu”. Eu não agüentei e pus pra fora o meu complexo de inferioridade que estava ruminando e disse: “Mas esse não presta para fazer sagu. Ali na frente, na prateleira de bebidas finas tem um “Almaden Merlot” de primeiríssima qualidade...experimente aquele pra fazer o seu doce!”
Em São Miguel do meu tempo existia uma madame muito chegada em beiço de porco. Quem foi açougueiro naquele tempo, há de se lembrar de quando ela chegava toda altiva e perguntava: “Tem beiço de porco?” Se a resposta era afirmativa, ela complementava: “Eu quero bem magro, senão engordura os lábios...” Parece piada, mas não é...Minha filha quase teve um “treco” quando soube como era feita a lingüiça. E a história se fez mais sinistra para ela, quando veio saber o que era um chouriço. Na minha análise de psicólogo de botequim, quando vejo esse desfile de poder aquisitivo e brigamos com o açougueiro por esta ou aquela peça, me projeto nos primórdios da humanidade e chego a conclusão de que somos pouco diferentes dos cães que rodeiam a porta dos açougues. O que aquela agente reunida ali naquela fila não sabe, é que há pouco tempo, em relação à idade da pedra, coisa de dez doze mil anos mais ou menos, nós disputávamos carniça com lobos e chacais. Alguém precisa contar isso pras madames exigentes.
Com a chegada do final do ano e com o advento do Natal, há uma força capaz de revolver no nosso interior, os instintos mais primitivos. Diga-se de passagem, em nome da fé e da religiosidade. Existem pessoas, que principiam nos meses de outubro e novembro, a estocar carne no “freezer” para as ceias de fim de ano. Vão se o Natal e Ano Novo, mas ficam a azia e o colesterol em ponto de bala. É o nosso lado primitivo, o qual não conseguimos evoluir, por mais que tenhamos um verniz de civilizados do século XXI. Lá no íntimo, ainda festejamos com muita carne, os grandes momentos, num verdadeiro ritual primitivo e tribal.
Devo confessar que não sou nem um pouco contra os “pecados da carne”, pois participo avidamente de uma mesa, onde sirvam carne vermelha, branca ou amarela. Eu apenas fotografei e registrei o comportamento do ser humano diante do objeto do desejo, independente de sexo ou idade, para alegria dos frigoríficos. Se o objeto do desejo vier embalado numa bandeja com isopor e celofane, encarecendo o produto, essa embalagem adota ares de aristocracia. O subconsciente produz o mesmo efeito visual de uma caixa de bombons com laço de fita dourada.
Essa realidade na qual vivemos hoje, em pleno coração da cidade grande, me remete ao passado. Vem na minha memória, o velho Aníbal de Góes, o Dito Dias, o Ditão de Góes, o Valdir, o Zé de Almeida, o Airton Favoretto, o João Agostinho, o velho Joaquim Cunha e o Amador Nunes. Muitas peças que hoje custam razoavelmente, antigamente eram doadas por esses açougueiros aos menos favorecidos. Hoje se aproveita tudo! Até o berro do boi…
Ao confrontar a dama do filé de merluza, me vem na retina, como uma névoa, as mulheres bucheiras do matadouro de São Miguel no meu tempo de menino, como um retrato em preto e branco, quase apagado...Elas disputavam espaço com cães vadios, urubus, sob a fedentina do matadouro. Buchos e intestinos de boi ou porco eram lavados no rio que circundava o local. Depois, a tripa era soprada e exposta à defumação nos fogões de lenha. Hoje em determinados restaurantes, tripa é prato sofisticado.O açougue mais modesto que vi em São Miguel no meu tempo de menino, foi o do velho Joaquim Cunha, nos altos da Vila Nova...Porta feita em grade de madeira, num cômodo minúsculo. Não havia geladeira! O velho trabalhava somente carne suína salgada. Outras vezes, ele só matava o porco depois de vendidas as partes, para não correr o risco de perder a peça. Um dia a fiscalização chegou e lacrou o seu estabelecimento. Faltava-lhe carimbo de inspeção...
Hoje tudo o que consumimos tem de ter carimbo e data de validade. Eu me recordo de um senhor, no mesmo supermercado do qual estou falando, discutindo com a mocinha do caixa por não conseguir achar o prazo de validade num saquinho de pipoca. Fiquei imaginando o quanto nos somos intransigentes com as pequeninas coisas.Como diz a Bíblia: “Coamos um mosquito e engolimos um camelo!” Não vai muito tempo, nós e nossos filhos consumimos leite radioativo, contaminado pela usina nuclear de Chernnobyl, importado pelo Presidente Sarney. Foi um tempo sem leite e sem carne para satisfazer os nossos instintos mais primitivos. Por isso contrabandeávamos picanha ou roubávamos leite em pó nos saques em supermercados. Assim sendo, uns carunchos de milho, possivelmente contidos na pipoca, não iriam fazer muito mal. É como diz o caipira: “O que não mata engorda. Bicho de fruita é fruita”.
Isso tudo começou quando o homem principiou a comer com garfo, faca e colher. Depois, transformou esses instrumentos de utilidade prática para extensão e auxílio das mãos, em sofisticadas peças de puro luxo. Às vezes, nas nossas caminhadas pela cidade, observamos sob pontes e viadutos a raça humana na sua forma quase original. Comendo resto do lixo com as mãos. Não são nossos ancestrais adâmicos que sobreviveram até os dias de hoje! São nossos contemporâneos, que por alguma razão, foram marginalizado dessa sociedade que todos os dias está no açougue só para saciar a sede de sangue...
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